Uma de nossas estratégias comerciais para o confinamento do segundo semestre (Front)

  • Por Rodrigo Albuquerque - 20 de Junho de 2019

Companheira(o) que carrega o pó da viagem,

“Rodrigo, não está fácil comprar as PUTs, o que você está fazendo”? Esta pergunta recebi com recorrência nesta semana. Este é o foco desta missiva eletrônica do bovino...

1)    COMENTÁRIO DA CABINE DE COMANDO
Os frigoríficos retomaram a “coragem de colocar boi na escala” e o mercado voltou ao trieiro da normalidade, começando a refletir em preços. Na média do Brasil, pela primeira vez depois do início de abril (ocasião em que o boi havia perdido o ritmo de alta), tivemos variação positiva. Aliás, foi a maior alta semanal de 2019: recuperamos R$ 1,80/@, alcançando R$ 144,39 a prazo no boi e R$ 134,19 na vaca (praticamente no mesmo nível de 30/05). Apenas o MA teve leve acomodação negativa. Algumas praças ficaram estáveis, mas o destaque de fato foi a forte apreciação verificada em SP, GO, MG, MT e RO. Vários outros estados tiveram altas menos intensas (dados Scot/IBGE, adaptados).


Os indicadores de margem da indústria estão em linha com o patamar de antes da questão EEB atípica. O atacado sem osso não vai muito bem (mercado interno ruim), mas está compensado pela firmeza da carne com osso e pelo suíno em decolagem vertical. A grande mudança vista após este turbulento início de junho, foi que agora as indústrias lidam com um ambiente de escalas bem mais curtas e com maior dificuldade de originação de boiadas, comparado ao que se via antes da questão China. Via de regra, a próxima semana começa com escalas incompletas, prejudicadas pelo feriado (um dia a menos de compra) e ainda por cima, seguida de virada de mês. A exportação não perdeu o ritmo dos embarques! Em nossa visão, devemos encarar um período de recuperação de preço nas próximas semanas, com disputa pelas boiadas. Segue o jogo!

2)    RECADO DA “MÃE DINAH”
Cada vez mais eu acho que o agosto/19 será um irmão muito parecido com agosto/17...

3)    BEEFRADAR (reforço importante do percentil de alta)
15% queda | 25% estabilidade | 60% alta

4)    HORA DO QUILO
“Agora que eu quero comprar, a PUT tá cara”? A VOL mandou o preço da PUT para a PUT que partiu... Quer entender o que está ocorrendo com a precificação das opções? Este podcast dos assinantes do Front dissecou este tema:
https://gestaoderiscoempecuaria.com.br/noticias/lista/conteudo-premium/

5)    TO BEEF OR NOT TO BEEF, A SUA REFLEXÃO SEMANAL
O mercado de 2019 está oferecendo ao pecuarista um cenário bastante desafiador e altamente perigoso: alta volatilidade em um ambiente de preços em aquecimento, tanto para grãos, bezerros, arroba. Um dos anos mais difíceis que já vivi... Tem a mesma sensação?

6)    O LADO “B” DO BOI
Para responder à pergunta intrigante do primeiro parágrafo, vou detalhar nossa estratégia comercial para o gado confinado de set/19. Ela questiona sobre o “seguro da baixa da arroba”, uma das excelentes alternativas de proteção de preço. Não vamos detalhar neste momento tudo a respeito da tal PUT (ou opção de venda do mercado de opções da B3), pois este não é o objetivo. Para quem não tem tanta afinidade com a tal, lembre que ela se assemelha grosseiramente a um seguro de carro (trocando o carro pelo boi de um determinado mês de abate). O raciocínio é muito parecido: você paga um prêmio para a seguradora e a partir deste momento, caso ocorra um sinistro, você fica coberto, de acordo com a apólice.

Tal como ocorre no seguro de carro, na PUT há também três fatores que a encarecem: 1) o valor do bem (ou seja, o valor da arroba a partir do qual, caso o mercado vá abaixo dele, o seguro te protege); 2) o risco do mercado (no caso do carro é determinado pelo questionário de risco e no caso do boi pela volatilidade ou VOL); 3) o tempo de cobertura (assim como no carro, no caso do boi, quanto maior a quantidade de dias entre a aquisição do “seguro” e o mês a que ele se refere, mais caro).

O que está ocorrendo atualmente é que a volatilidade do mercado está altíssima, bem perto do máximo nível de VOL, o que deixa a PUT mais cara... Não tem como escapar da VOL. Na analogia com o seguro de carro é o mesmo, pois não tem como escapar do questionário de risco. Caso você more num CEP considerado de risco, sem garagem, estude a noite, etc, vai pagar um prêmio de seguro mais caro mesmo! Portanto, a pergunta do leitor é totalmente justificável. E a nossa reposta?

Disse a ele que a “barra está subindo”, ou seja, em um ano com voltatilidade máxima de milho, reposição e boi, as coisas ficam mais difíceis e com a gestão de risco de preço, não é diferente. Precisamos de mais de uma atitude para mitigar o risco de preço em 2019. E para ficar mais claro, vou dar o exemplo do quê implementamos com uma parte do nosso gado para abate em setembro. Nele, fizemos as seguintes atitudes de proteção:

1.    Desde meados de fevereiro, mantivemos forte contato com nosso parceiro de engorda terceirizada confinada (boitel Grande Lago), provisionando o volume de animais de 2019. Nosso parceiro foi buscando, de maneira personalizada, oportunidades no mercado enquanto o milho estava “largado”, até o início de maio. Naquela oportunidade, fiz vários podcasts recomendando proteção de preço para quem demandaria milho. Optamos por travar nossa diária para o ano, pois o nosso parceiro comprou no mercado físico (e futuro) o grão demandado para nossa engorda (com o volume de gado definido contratualmente). Em resumo, nós dois transferimos nosso risco para o mercado. Esta atitude está nos garantindo um preço de diária cerca de R$ 0,75/cab/dia menor do que seria negociado hoje (em um período de 100 dias de engorda, estamos falando em R$ 75/cab, valor altamente significativo). Esta é uma excelente vantagem do “Uber pecuário não comoditizado”: a integração de parceiros;

2.    Quando o mercado do boi “derreteu”, no início de junho em função da “vaca véia e quase louca” do MT, recomendamos (via podcast) a aquisição de calls, pois entendíamos que o mercado não estava em um nível real. Na ocasião, compramos calls para setembro, pagando prêmio próximo a R$ 1/@, no strike médio de R$ 165,00;

3.    No  dia 17/junho, fizemos termo de preço fixo para setembro, no nível de R$ 161/@ no mercado futuro, o que nos balizará um preço de venda de R$ 155,50/@ a prazo em Goiás (considerando as certificações do gado obtidas em nível máximo ao abate). Mais realisticamente, podemos considerar algo como R$ 154,00/@. Projetamos o custo da nossa @ vendida ao redor de R$ 137, portanto, o termo nos dará uma margem mínima de R$ 16/@, já considerado o desembolso com o prêmio da call comprada (nosso alvo é de R$ 15 a R$ 20 de margem por arroba);

4.    No dia 18/junho, fizemos uma operação de spread no mercado futuro, comprando o mês de agosto e vendendo o outubro, pois como a força do mercado é maior no mês padrão da entressafra (out), nos momentos de aquecimento, o diferencial de preço com outros meses, fica irreal. Conseguimos travar o spread de R$ 6/@ entre estes meses, na esperança de capturar parte deste delta, caso esta diferença se estreite adiante (ajuda fundamental da Radar Investimentos, do Leandro Bovo e Luiz Henrique);

Traduzindo... com o misto das 4 atitudes elencadas, nossa situação prática é: seja lá o que ocorrer com o milho, isto não afetará nossa rentabilidade; caso consigamos cumprir as metas zootécnicas, temos garantido, com alguma folga, o mínimo de margem desejada, podendo ainda aumentá-lo no caso de êxito da operação de spread do mercado futuro ou da operação de call comprada (caso a arroba aumente mais ainda sua cotação, teremos possibilidade de capturar parte deste valor com a opção de compra, afinal, este ano é um ano complicado para se fazer termo de preço fixo desacompanhado de uma call comprada porque o mercado tem potencial de recuperação de preço importante). Detalhe: a combinação das atitudes citadas contempla alguns lotes de nosso gado. Há outros modelos de gestão de risco em uso.

Não temos a pretensão de ter feito o melhor negócio do ano e nem de ser exemplo para ninguém. Vários amigos estão tendo sucesso. Apenas quis, com a maior transparência do mundo, mostrar nossa estratégia e reforçar que ter uma é a melhor receita para evitar que você mesmo se torne a estratégia de alguém.
Protegemos nossa margem mínima desejada. Este foi o foco! Num ano desafiador como 2019, fazer uma gestão de risco mais elaborada é o único caminho. Ele não é fácil, mas deve ser buscado! Até a próxima!

Fotos em destaque: cena do interior de Goiás e referências à bolsa de valores de SP, foco deste episódio. Detalhes no nosso Instagram: @noticias_do_front.

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