Safra firme, entressafra firme. Isto costuma ser verdade? (Blog Front)

  • Por Rodrigo Albuquerque - 11 de Abril de 2019

Companheira(o) que carrega o pó da viagem,

Ponho os olhos na tela e vejo o mercado físico (Indicador Esalq/BMF) em R$ 158,80 e a entressafra (BGIV19, outubro na BMF) em R$ 158,60. Ué? A inspiração deste Front veio daí!

1)    COMENTÁRIO DA CABINE DE COMANDO
Três fatos chamaram a atenção nesta semana:
1.) o atacado estancou a sangria na virada de mês e esboçou uma leve reação, melhorando a margem da indústria, que ainda segue menor que o passado recente;
2.) as boas chuvas de abril com relaxamento do milho, concomitantes ao aquecimento da arroba, recolocaram a relação de troca (sacas/@) ao patamar da história recente (4,30), abrindo boas perspectivas para a suplementação da seca;
3.) nas últimas semanas, de maneira geral, os diferenciais de base (diferença da arroba paulista com as praças) abriram R$ 2,50 a R$ 3 (variando de R$ 1,50, como no MS, até o extremo de R$ 4 a R$ 8, a exemplo de SC, PR e MT). Isto abre espaço para valorização nas praças, a qual está em curso.


Prova disto é que dados da Scot/IBGE adaptados apontam a arroba média do boi no Brasil em R$ 146,69 a prazo, pela nona semana seguida em recuperação. Indicando a mesma tendência, seguimos rondando o recorde nominal de preços do maior levantamento da pecuária, o Indicador Esalq/BMF. Isto tem deixado o produtor “incomodado”, tentando operações de proteção de preços.

De outra sorte, a indústria está a todo vapor na operação “sábado de aleluia”, tentando fazer a escala da próxima semana encontrar a sexta (19/04, em geral sem abate), para poder dizer ao telefone: “só preciso de boi láááá para beeeem depois do dia 20/04”. Olho atento, ainda mais, se vier uma “friagem” no meio do caminho... Onde esta história deve desembocar? A MãeDinah conta... Segue o jogo!

2)    RECADO DA “MÃE DINAH”
“Mercado de clima” em carga máxima para o milho safrinha, onde cada “manga” de chuva deste (molhado) abril, derruba a baliza do cereal em R$ 0,20/sc. E os frigoríficos ansiosamente aguardam uns 20 dias de estiagem e uns 10 graus de temperatura média menor. Calma! Ainda existe o zap do pasto...”

3)    BEEFRADAR (5 pontos foram deslocados da alta para queda)
15% queda | 35% estabilidade | 50% alta

4)    HORA DO QUILO

“Tem muita gente que usa a tecnologia que custa dinheiro sobre um sistema de produção que não usa a tecnologia que não custa dinheiro” (Antonio Chaker, em palestra no Encontro de Recriadores e Confinamento da Scot, na semana passada).

5)    TO BEEF OR NOT TO BEEF, A SUA REFLEXÃO SEMANAL
Você poderia me dizer: “Rodrigo, eu também acho absurdo o outubro estar abaixo do físico, mas a BMF é muito pequena e não reflete a realidade”. Resp.: sim, ela está pequena, mas ainda tem impacto, seja porque é usada erroneamente (como termômetro), seja porque ainda é uma baliza importante dos frigoríficos com relação ao termo. Negar que a BMF, apesar de pequena tem influência nos preços, é o mesmo que afirmar que “o navio”, que leva apenas 0,4% do rebanho nacional, não interfere na precificação da bezerrada.

6)    O LADO “B” DO BOI, A SUA CRÔNICA SEMANAL DE GESTÃO DE RISCO EM PECUÁRIA
Para refletir sobre a (suposta) aberração do primeiro parágrafo, vou usar o gráfico que contém a direção dos preços ao longo de cada ano, e não o seu valor (costumo chamar de “trieiro” dos preços). Nele, não vemos valores de arroba, mas sim, o seu “rumo”, ou seja: se a partir do preço base (01/jan), a arroba foi ladeira cima ou abaixo. Obs.: eu expliquei o raciocínio da construção deste gráfico mais detalhadamente no front (item 6.2): https://gestaoderiscoempecuaria.com.br/noticias/noticia/raiox-do-primeiro-trimestre-de-2019-blog-front/ . No gráfico abaixo, há um emaranhado grande, pois aí está o “treiro” dos preços dos últimos 12 anos, além de 2019 (que é a linha vermelha reluzente, construída com o mercado físico realizado e com futuro a realizar). Veja:



De cara, dá claramente para perceber que, do ponto de vista do comportamento da arroba, o ano de 2019 não se parece em nada o grupo composto pelos anos de 2009, 2011, 2012, 2017 e 2018 porque ele está apresentando uma safra de pasto firme. Por sinal, estes anos foram “custosos”, como diriam os goianos... São os piores em termos de direção dos preços de arroba no primeiro semestre. Opa... Boa notícia!

Seguindo na análise, vejo o “trieiro” de 2019 mais parecido com os anos de 2007, 2008, 2010, 2013, 2014, 2015 e 2016, todos estes sete anos (G7), foram de safra muito firme. Veja o mesmo gráfico anterior, porém sem os anos “custosos”, apenas os sete citados acima (G7):



Em todas as linhas do gráfico acima (anos mais parecidos com o que estamos vivenciando até agora), vemos que nosso passado recente não mostra serem comuns solavancos de preços até a segunda quinzena de maio. Obs.: a exceção foi 2008, não porque “afundou”, mas sim porque “decolou” em maio (veja a linha marrom-alaranjada).

Note também que 85% do G7 é composto por anos em que houve diminuição do abate de fêmeas (ou no máximo um leve aumento) frente ao ano anterior: 2007, 2008, 2010, 2014, 2015 e 2016. Hum...

Outro ponto: do meio para o final de maio, parece haver uma dicotomia de caminhos, que divide o G7 em dois subgrupos: os que tem o segundo semestre igualmente firme e os que apresentam frouxidão de preços na segunda etapa do ano.

Interessante perceber que 70% do G7, teve a curva de preços do segundo semestre em nível superior à do primeiro semestre. Em outras palavras, a curva foi construtiva para os preços ao longo do ano em 5 destes 7 listados. Isto significa dizer que uma safra de preços firmes, produziu (com base no nosso passado recente) uma entressafra igualmente firme na maioria das vezes (70%). Só para reforçar como isto é marcante, digo que as 3 melhores entressafras da história estão neste seleto subgrupo do G7 (2007, 2008 e 2010).

Note que mesmo neste seleto grupo dos 5 anos com entressafras mais “quentes” (2007, 2008, 2010, 2013, 2014, todos com a média do segundo semestre superior à media do primeiro), ainda assim, houveram solavancos e decolagens fortes (alta volatilidade).

Existiu a clara tendência dos picos de preços ocorrerem no quarto trimestre. Note também que 2008, apesar de ter exibido um segundo semestre melhor que o primeiro, não apresentou curva ascendente. Resumindo, mesmo neste grupo, tudo é possível!

E nos 30% do G7 onde, apesar de termos tido uma safra firme, o preço do segundo semestre foi menor que o do primeiro? Quando isto ocorreu? Em 2015 e 2016, anos que embalaram a maior crise político-econômica em 100 anos de república. Pergunto: você acredita que 2019 se parecerá com estes dois anos? Não que estejamos anos luz de distância da “rainha” das crises, afinal de contas nossa recuperação está vindo a “laço de espora” (como diriam os gaúchos pois a recuperação no pós-crise tem sido bem mais devagar do que gostaríamos). E outra: tudo bem, o milho está mais acessível, mas será que vem pela frente um “tsunami de confinamento”, considerando que o atual ágio do boi magro está nas alturas?

Independente destas ponderações, a questão é impactante e não me parece razoável o ano de 2019 ter profunda semelhança com 2015 e 2016! Isto é possível? Sim! Mas não é o caminho mais provável, na minha visão!

Finalizo ressaltando que nosso futuro não necessariamente refletirá o nosso passado, por isto continua valendo a regra de ouro: “o oxigênio dos nossos negócios é margem e não preço” (André Bartocci). De toda a forma, esta análise e várias outras que tenho compartilhado aqui, me reafirmam que parece existir uma promoção em curso referente à arroba do segundo semestre (ou então, inversamente e para quem acreditar, uma mega oportunidade para o boi de pasto de final de safra). Até a próxima semana!

Fotos em destaque: fotos excelentes do meu amigo José Rangel de Camargo (o popular Zeca Rangel) de Franca/SP (Instagram @camargo2833), que além de boi gordo de ótima qualidade, ainda dá conta de produzir 83,2 sacos de soja/ha (detalhes no Instagram @noticias_do_front).

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