Perspectivas da macroeconomia em 2019 (Blog Front)

  • Por Rodrigo Albuquerque - 15 de Fevereiro de 2019

Companheira(o) que carrega o pó da viagem,

Relato neste front o meu entendimento a cerca da excelente palestra do economista Alexandre Schwartsman, ex-banco central e atualmente colunista, ocorrida na Faeg (na última quinta-feira, dia 14/fev). Vejamos como anda a saúde do nosso motor propulsor, o “MI”.

1)    COMENTÁRIO DA CABINE DE COMANDO
O mercado da arroba está que nem inventário de família pobre e numerosa: está numa briga danada! O motivo você já sabe: o bovino está escasso, ainda mais agora com o pecuarista aliviado pela volta das mangas (as chuvas de verdade não voltaram). A indústria frigorífica está naturalmente “estaqueada” no polo oposto, pressionada pelo atacado (especialmente no traseiro e desossa). Desta forma, o frigorífico ativa o modo “dane-se” (ou f...-se) para as escalas, que encurtam, sem repercutir em melhoria de preço na mesma intensidade. Resumo: não paga para cima, não compra volume e tá tudo certo!


O cenário está como o script manda para o primeiro trimestre: a “pedra no sapato” dos frigoríficos no Brasil. Por isto mesmo disse no último Front que havia um “espírito” de recuperação de preços, não “uma decolagem 90º”. É o que está ocorrendo: a arroba de boi na média Brasil subiu R$ 0,19 na semana, alcançando R$ 142,96 a prazo (dados Scot/IBGE adaptados). A maioria das praças está estabilizada, poucas são as com reajustes mais fortes para cima ou para baixo (apenas o sul da BA sofre de maneira importante). Daqui uns dias é Carnaval e o ano começa, rs.

Falando nisto, logo começa a reposição dos estoques do varejo (além da virada de mês, terá feriado para ajudar), pois fevereiro é curto. A Mãe Dinah conta qual deverá ser o próximo movimento do mercado, na visão dela... Segue o jogo!

2)    RECADO DA “MÃE DINAH”
“O cabo de guerra do mercado deve seguir, mas ficará cada vez mais difícil conter a subida de morro do fogo da arroba. A não ser que a indústria alivie o pé dos abates. Será que ela o fará?”

3)    BEEFRADAR (o percentil de queda cede mais espaço para a estabilidade. A alta lidera)
15% queda | 40% estabilidade | 45% alta

4)    HORA DO QUILO
“A pecuária vem comendo era, matando boiadas cada vez mais novas”... Dois dias antes de escutar esta frase, tinha ouvido: “o Sr fulano foi no leilão e comprou gado em 18. Ele voltará a comprar gado só em 2021, prazo que ele demora prá matar os bois”. Detalhe: a pecuária de ciclo “trianual” (boi de 4 anos) está numa região de pecuária toooop. O buraco é mais embaixo...

5)    TO BEEF OR NOT TO BEEF, A SUA REFLEXÃO SEMANAL
A frase do ano, dita numa Tech Conference: “Os EUA querem investir US$ 5 bilhões em um muro. A China está investindo em inteligência artificial, ela construiu seu muro há 2.000 anos atrás” (Fonte: Zé Rangel). Sim, a frase está fora do contexto, mas serve para reflexão. Sem entrar no mérito do Trump, eu lhe pergunto: você está construindo ou destruindo seus muros?

6)    O LADO “B” DO BOI, A SUA CRÔNICA SEMANAL DE GESTÃO DE RISCO EM PECUÁRIA
Tenho dito que somos um país de mercado interno ainda que a exportação seja muito importante. Digo isto porque 20% das andorinhas (ou da carne, ou talvez 25%), não fazem verão. Se o motor do mercado interno não estiver “tinindo, o boi não vai de acordo” (como diria a turma do MS). Resumo abaixo o que o Alexandre Schwartsman nos mostrou, sob a minha ótica.

A apresentação rondou a seguinte questão: qual a capacidade de retomada minimamente razoável que hoje teria a nossa economia interna? A questão se sustenta porque a nossa pior recessão (que durou 11 trimestres), acabou mas a recuperação “está devendo” frente ao histórico de situações semelhantes. Com base na história, deveríamos ter acumulado o total de +7 a +8% de PIB, sete trimestres após o término da recessão. Entretanto, estamos com apenas +3%. Segundo ele, entre o final de 2014 e de 2016, perdemos 8% de PIB e cerca de 11% de força na demanda interna. Na visão dele, a recuperação pós-crise “não está empolgando”.

Interessante também, foi ele mencionar que recessões “não são novidade” no Brasil, afinal de contas, de 1980 para cá, são 153 trimestres sendo que em aproximadamente 1/3 deste tempo (ou 49 trimestres), estivemos em recessão.

Em seguida, o Alexandre buscou dissecar um possível motivo em termos de indicador econômico, para justificar esta nossa atual arrancada “meia boca”. O emprego, poderia ser o motivo? Seus dados mostram que mesmo com uma piora na qualidade da ocupação vista nesta retomada (aumentamos as ocupações informais e por conta própria), nós conseguimos recompor a massa salarial mensal. Em outras palavras, o emprego poderia (e deveria) estar melhor, mas não justifica o fato. Da mesma forma, todos os demais “tradicionais culpados” pela mazela do crescimento pífio brasileiro (tais como a inflação, os juros, o varejo, o balanço de pagamentos e o dólar), não estão “fora do prumo”. Todos poderiam estar melhor, é claro, mas não chegam a comprometer. A inflação está baixa, os juros idem, o varejo razoável (cresceu 5% em 2018), temos US$ 380 bilhões de reservas, o dólar ajustado para a inflação está próximo da média de décadas, etc... Qual seria então o problema que está atravancando nossa retomada?

Direto ao ponto: investimento. Caiu muito forte, e diferente do consumo, ainda não se recuperou, porque o risco Brasil continua ainda alto! Assim, os prêmios internacionais para nossa economia dispararam, diminuindo a rentabilidade dos investimentos feitos aqui. A questão central: a percepção de risco BR ainda é alta porque houve uma grande piora das contas públicas, ou seja, um enorme desequilíbrio fiscal! Este desequilíbrio não vem de um problema na receita, mas sim nas despesas, por três motivos: cresceram acima da inflação, estão seriamente engessadas (90% do orçamento são gastos obrigatórios por lei) e tiveram sua composição piorada (principalmente pela elevação dos gastos com previdência).

Segundo seus cálculos, apenas entre 2023 à 2027 (“se o teto não ruir antes”) a dívida do governo pára de crescer, ainda na dependência do crescimento do nosso PIB. Portanto, o País precisa de um ajuste fiscal de longo prazo, sendo fundamental o “start” pelo ajuste previdenciário e as distorções de algumas categorias (as contas estaduais, não analisadas por ele, são outro ponto de preocupação muito sério, na sua visão).

Temos que executar esta tarefa hercúlea (ajuste fiscal), apesar da fragmentação do nosso congresso e do questionável apoio/sensibilização da opinião pública (o ajuste é sempre bom, desde que não seja comigo). É o que temos para hoje...

Com este cenário de pano de fundo, ele finalizou a apresentação traçando possibilidades para 2019, à seguir: “há crescimento, mas o ritmo deixa muito a desejar; o país enfrenta um sério problema fiscal, principalmente no que se refere à previdência, com impacto nos 3 níveis do governo; as reformas exigem mudança da Constituição, ou seja, quórum qualificado de 3/5 na Câmara e Senado; no entanto, o Congresso permanece (e permanecerá) fragmentado, um problema para Jair Bolsonaro; no final das contas, o que vale é se a população apoia (ou não) as reformas; até este nó ser desatado, dificilmente teremos crescimento forte; por outro lado os velhos problemas que descarrilavam a economia estão sob controle: inflação baixa e contas externas em ordem; o jogo agora é político: representados e representantes precisam chegar a um novo pacto social que preserve estabilidade, inclusão e crescimento”.

E aí? Ficou igual a “dançar com a irmã, meio sem gração”? Eu gostaria de notícias melhores, mas saí de lá mais confiante no caminho que tracei para a arroba no Front #358 (https://gestaoderiscoempecuaria.com.br/noticias/noticia/qual-a-velocidade-maxima-do-bovino-em-2019:-r$-160-ou-r$-170-blog-front/). Tenho certeza disto? Absolutamente nenhuma!

Tomara que estejamos todos errados e o bovino possa assumir o melhor dos três cenários descritos por mim no episódio citado acima, pois aí, ele romperia com folga (ainda em 2019), o recorde real de preços, datado de abril/15 (atingiria valor acima de R$ 180/@ em SP). Entretanto, prevejo como mais provável a ocorrência da média entre o cenário pior e o mediano (fato que já não seria de todo ruim). Acho que agora matei a sua lombriga de preços para o ano, correto? Até a próxima semana!

Fotos em destaque: Evento do Campo à Cidade, na FAEG e Workshop interno Zoetis sobre inovação em reprodução e sanidade animal (detalhes no Instagram @noticias_do_front).

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