O que tem por trás da interrupção dos embarques China (Front)

  • Por Rodrigo Albuquerque - 7 de Junho de 2019

Companheira(o) que carrega o pó da viagem,

“Parece que tava bom, mai tava meio ruim tamém. Tava bem ruim mesmo... Ia mudá pra mió, pa modi miorá, mai piorô”!? Um bom resumo do mercado.

1)    COMENTÁRIO DA CABINE DE COMANDO
Da última segunda para cá, após a “auto” suspensão da exportação à China, imposta pelo MAPA, predominou um cenário opaco, volátil e indefinido: ninguém enxergam muito mais que sete dias; as variações de preço tem sido rápidas/intensas; tudo segue indefinido, e portanto, grandes posições direcionais são evitadas.


No início da semana muitos frigoríficos ficaram fora de operação, com interrupção de abates em várias plantas. De terça/quarta em diante, várias operações voltaram, porém com grande dispersão (inclusive com algumas em férias coletivas iniciadas ou especuladas). Tentativas de redução das ofertas de compra de até R$ 5/@ foram vistas (com mais frequência entre R$ 2 a R$ 4/@). O mercado está heterogêneo, fato natural, visto que também é heterogêneo o percentual de plantas aptas a exportar para China de cada empresa. As escalas estão despadronizadas, mas em geral estão mais curtas (propositalmente?). Mas ainda estão confortáveis, até mesmo porque estamos no final da safra. E ainda tem o recuo do dólar, no futuro já abaixo de 3.90, para complicar mais um pouco.

As plantas menos afetadas chegam a pagar o mesmo valor de antes desta “fuzarca”, desde que vendo suas escalas encurtarem, constrantando com a necessidade de produção para mercados não China. Tem de tudo, variando de praça para praça e de planta para planta. Uma coisa é certa: não há facilidade de compra no caso das ofertas muito pressionadas. O pecuarista está bastante reticente em entregar a mercadoria desvalorizada. O mercado precisa de mais tempo para voltar a ver o fundo. A próxima semana será decisiva, parece. Segue o jogo!

2)    RECADO DA “MÃE DINAH”
Nestas horas, a gente vê claramente que tem frigorífico que parece gostar mais de dinheiro do que outros...

3)    BEEFRADAR (desidratação máxima do percentil de alta, retratando a realidade até a China retornar às compras)
55% queda | 40% estabilidade | 5% alta

4)    HORA DO QUILO
Vi declarações de compradores de gado gordo do tipo: “a arroba em SP está recuando uns R$ 10”, ou “com o caso da vaca louca do MT, não sabemos o quê vai virar este mercado da carne”. Alguns soltando mensagens de zap da época da Carne Fraca! Inacreditável como a vontade pelo ganho de curto prazo, arrebata alguns. Evidente que não podemos generalizar.

5)    TO BEEF OR NOT TO BEEF, A SUA REFLEXÃO SEMANAL
Fundamental será ver a direção do atacado de carne, que permaneceu de lado na com osso, mas perdeu valor na sem osso. O que vai pesar mais: a força positiva do enxugamento de estoque em função da menor produção dos últimos dias ou o peso da carne redirecionada para o mercado interno? Por ora considero este cabo de guerra neutro. Da mesma forma que não vejo derretimento no boi, mas sim pressão leve/média (idem para o mercado de reposição).

6)    O LADO “B” DO BOI

Vamos alinhar sobre o ocorrido: uma vaca de 17 anos foi encontrada caída na inspeção anti-mortem no dia 05.04.19 na cidade de Nova Canaã do Norte/MT e, após análises do Laboratório Nacional de Pernambuco (LFDA/PE), confirmadas pelo Laboratório da Agência Canadense de Inspeção de Alimentos no dia 31.05.19, constatou-se cabalmente que se tratava de um caso atípico de Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB atípica), tendo sido o terceiro caso do nosso País. No mesmo dia 31.05.19 a Organização Internacional de Epizootias (OIE) foi notificada e, segundo a entidade, de acordo com a regulamentação da OIE, “para fins de reconhecimento do status de risco para EEB, uma EEB atípica é uma condição que ocorre espontaneamente em toda população de bovinos, em uma taxa muito baixa de ocorrência. Portanto, este evento não tem nenhuma influência no status do reconhecimento oficial do risco de EEB do Brasil. A investigação foi concluída”. A tradução do site da OIE foi feita diretamente por mim e nada está mais claro: “the event is resolved. No more reports will be submitted” (o evento está resolvido. Nenhum outro relatório será adicionado). A verdade insofismável, indiscutível, irrefutável, incontestável: não existe problema sanitário no Brasil!

Porém, no dia 03.06.19, o MAPA impôs preventivamente a suspensão da Certificação Sanitária Internacional de todo produto bovino produzido e expedido após 31.05.19, oriundo de qualquer planta habilitada. No comunicado, o MAPA diz que considerou o “item 4 do artigo 4 do Protocolo Provisório Bilateral” firmado entre Brasil e China (nº 7472602).

O acordo bilateral assumiu protagonismo perante as regras da OIE, na visão do MAPA. Como ele é mais exigente que a OIE, o MAPA considerou que é ele que vale. Há uma discussão que veio ao público, por parte de pessoas que assinaram este acordo bilateral há vários anos (parece que foi no governo FHC), dizendo esta auto-suspensão não seria necessária. Vai saber, “filho feio não tem pai”. Mas, na visão de quem está atualmente à frente da pasta, a atitude de “deslistar” preventivamente as plantas era necessária.

Podemos até discutir se o MAPA está querendo ser mais “realista que o rei” (mais exigente que a OIE), pois a atitude foi como ter pedido a um juiz chinês uma análise do VAR para validar um pênalti contra si próprio... Mas, não podemos dizer que o MAPA está sendo lento e não transparente. Muito pelo contrário! Demonstra credibilidade, mas isto tem um custo...

A questão central é: quem fechou a exportação foi o Brasil, mas a reabertura está na mão dos chineses, que não deram prazo máximo para avaliar. Este é o ponto: quanto tempo demorará para reverter o caso? Especula-se entre uma semana e um mês... Ninguém sabe.

No fundo o que estamos vendo é que toda enfermidade animal de interesse sócio-econômico, tem de início uma FASE TÉCNICA onde impera a questão sanitária propriamente dita. Depois desta fase resolvida, inicia-se a FASE COMERCIAL, onde impera a força de negociação de cada parte, desde que estejam respeitados as regras da OIE. É exatemente o que está ocorrendo. Evidente que estamos diante de um caso negocial entre os dois países.
Há duas semanas, conclui o Front 374 com a seguinte frase: “bons ventos virão, mas não será fácil fazer o negócio da China justamente em cima da China. Gerencie suas expectativas” (boca santa). Veja o link: https://gestaoderiscoempecuaria.com.br/noticias/noticia/febre-do-porco-ou-do-exportador-de-carne-front/

Aquela civilização oriental é milenar e nós apenas engatinhamos no cenário internacional do comércio global! A própria existência desta cláusula no acordo bilateral, é um claro sinal indicativo de quem negocia melhor... Pesa o fato de que, apesar de termos um potencial gigantesco como força global no agro, somos pouco mais de 1% do comércio mundial internacional. Neste ranking liderado pela China, ocupamos a 27ª posição, atrás de Vietnã e Malásia (fonte: OMC). Por isto, enfrentamos este tipo de dificuldade. Os EUA tiveram seis casos de EEB atípica (o dobro que nós) e nunca tiveram este tipo de problema. Isto, aos meus olhos, é o que tem por trás desta decisão do Brasil: somos "cachorro pequeno"...

Perdemos todos, toda a cadeia, mas principalmente perde o produtor! Acredito (e espero) que isto seja revertido em um horizonte de até 4 semanas, e na melhor das hipóteses, atrasará muito a avaliação sobre a adição de mais plantas à seleta lista exportadora. Assim espero, caso contrário as consequências podem ser importantes nos preços internos (a interrupção repentina dos embarques é um duro golpe nas margens das indústrias).

Iremos ver se os chineses estão mesmo precisando de carne barata ou não.... Na minha visão, a demanda crítica deles não é agora, mas sim na recomposição do rebanho suíno, após a fase dos abates suínos devido à peste. Mesmo sem estresse de demanda eles já são importantes, imagina num estresse...
Por fim: creio que eles saberão negociar muito bem o “presente” dado pela tal vaca de 17 anos. Tomara que este texto fique logo obsoleto com alguma boa notícia vinda de lá! Até a próxima oportunidade!

Fotos em destaque: palestra realizada na Semana Acadêmica da Veterinária e Zootecnia da UFG, em Goiânia, na última terça-feira, 04.06.19. Detalhes no nosso Instagram: @noticias_do_front.

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Comentários ( 3)

  • - Rodrigo Albuquerque

    Frederico, eles são milenares na arte de negociar. E são os maiores do mundo no ranking da OMC. Tem todo o poder de negociar. Reginaldo, sim, a carne pode ser consumida e inclusive existe um "mercado negro" que destina o produto ao consumo, segundo algumas fontes que tenho. Eles estão com boa oferta de carne agora. O próprio Alexandre Mendonça de Barros citou isto em um recente evento, em abril/2019.

  • - Frederico Stecca

    Com a AutoSuspensão , teríamos uma chance de mostrar aos chineses que eles são importantes, mas não insubstituíveis. Mas a má notícia deu forças às nossas gigantes indústrias que aproveitaram o momento para dar férias e sombrear , amargurar o mercado . Com isto acredito que os Chineses irão pisar nos pecuaristas brasileiros . Perceberam a influência que tem .

  • - Reginaldo Cunha Guimarães Filho

    Tudo bem Rodrigo ? Os abates sanitário dos suínos na China podem ser consumidos por humanos? Obrigado

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