O pó da viagem pode salvar a imagem do agro (Front)

  • Por Rodrigo Albuquerque - 7 de Setembro de 2019

Companheira(o) que carrega o pó da viagem,

Já dizia meu sogro: “quem fala demais revela a ignorância... quem fica calado sugere a sabedoria”. Neste tsunami de inverdades a respeito do agro, sobra ignorância e falta o mínimo senso de inteligência. Qual o remédio para salvar a nossa imagem? Dica: ele, sempre ele...

1)    COMENTÁRIO DA CABINE DE COMANDO
Quem dita o ritmo atual do mercado é a oferta, que está menor no mercado spot/balcão. Há um certo desequilíbrio entre esta oferta spot mais curta e a demanda, que apesar de continuar seguindo longe de ser uma Brastemp, não está completamente atendida neste momento (virada de mês). Neste cenário, para os compradores de boi gordo, somente o boi a termo salva... Este tipo de situação, em geral, desemboca em uma decolagem do boi muito morna, sem graça mesmo (diferente de quando a demanda “toma a guia”).


É isto que estamos vendo desde o início de agosto, há seis semanas portanto. A exportação vai indo “muito bem, obrigado” (podendo melhor ainda mais, com as tais vídeo conferências). As vendas externas estão entregando excelente margem, pois volume e preço estão em alta. Mas ela, sozinha, não consegue suplantar um mercado interno em convalescência interminável (seguindo tal como nossa economia, não por acaso da mesma forma).

Prova disto é o atacado sem osso, varejo bovino, atacado suíno, frango e até o ovo estarem em estabilidade. A carne com osso destoa e toma um fôlego neste início de mês. Se ao invés de um fôlego, tivéssemos uma acelerada, aí sim teríamos uma decolagem ereta no bovino.

Sem nada de novo, este deverá ser o nosso enredo por algum tempo ainda, visto que a entrega do segundo giro do confinamento ainda não “engatou uma quinta”. Segue o jogo!

2)    RECADO DA “MÃE DINAH”

Fogo na Amazônia?!? É porque não viram as altas labaredas do mercado de resposição. Este sim está pegando fogo!

3)    BEEFRADAR (manutenção do cenário de recuperação “morna” da arroba)
15% queda | 30% estabilidade | 55% alta

4)    HORA DO QUILO
“Nós não temos apenas um inimigo no manejo de pasto (o pasto batido), mas sim dois. Hoje sabemos que o pasto passado é quase tão ruim ou pior que o batido, em algumas situações” (zootecnista Edmar Peluso, da empresa Gerente de Pasto)

5)    TO BEEF OR NOT TO BEEF, A SUA REFLEXÃO SEMANAL
Passei dois dias envolvido com a Secretaria da Fazenda e o Órgão de sanidade animal do estado de Goiás. Algo saltou aos meus olhos: acabou aquela época de achar que a pecuária era terreno fértil para trapaças fiscais e/ou financeiras. A apuração física de rebanho para fins sanitários está alimentando um controle muito rigoroso sobre os aspectos contábeis, fiscais, tributários e patrimoniais. Do mesmo modo que o satélite desnudou a questão ambiental.

6)    O LADO “B” DO BOI
A revista The Economist anunciou 2019 como sendo o “ano do veganismo”. A nefasta previsão estava correta, pois particularmente neste ano, os ataques contra o agro completamente descabidos, infundados e desprovidos de um mínimo de ciência estão se multiplicando na mídia e redes sociais. Alguns são realmente ridículos, mas encontram ressonância na parte da população que nunca teve contato com o agro.

A maior parte destas pessoas não tem por princípio nada contra o agro. São nossos irmãos, que estão querendo apenas melhorar o mundo, como me disse o leitor Gabriel C. Cruz.

Gostaria que todos que criticam o agro pudessem ter a oportunidade e sentir na pele o que eu senti há 40 anos atrás, quando era uma criança. Segue este causo extraído do meu facebook (https://www.facebook.com/podaviagem/)...

“Nos idos de 1.979, há quatro décadas, lá estava eu na Fazenda Boa Sorte no município de Aquidauana/MS, a bordo do Valmet 65 ID Syncr-O-Matic, de propriedade do meu saudoso ‘Tio Marinho’. Por causa daquelas inesquecíveis férias escolares, nas quais eu deixava a capital de SP para ficar meses na roça, no MS, escolhi a veterinária, apesar de ser paulistano.

As carneadas das vacas gordas eram dias de festa. O fundo aparente das últimas latas da carne na banha dos capados, anunciava que uma nova carneada se fazia necessária.

Adorava trazer a língua do animal abatido para a varanda da casa. No final do dia do abate para consumo próprio, estava eu, dos pés à cabeça, ‘lambrecado’ de sangue. Hoje as crianças tem ‘nojo’ do que significava para mim voltar a ter um prato cheio novamente: o sangue. O bife de fígado acebolado na noite da carneada, trazia de volta a proteína para a mesa. Um fígado fresco com cebola e arroz branco é um manjar dos deuses...

O churrasco da costela e do cupim do dia seguinte, embalada pela salmoura pincelada pelas palhas de milho secas nas habilidosas mãos do meu Pai, davam um sabor inenarrável para aquela carne pantaneira produzida a base de pasto e um pouco de sal (branco). Era uma verdadeira carne orgânica...

Entendi desde cedo o que é a enorme responsabilidade animal, sanitária, social e ambiental da produção de carne por parte do pecuarista.

Saudades da rapadura (especialmente a de mamão), do leite gordo, do tereré (as vezes) morno, do Jipe “51 boca de jacaré” que ia rompendo as vazantes pantaneiras para entregar a carga de rapadura e queijo curado no Posto Redondo. Saudades do meu Tio Marinho e das suas histórias, de captura dos bois baguás... Um dia estaremos juntos”!


Esta história não é minha... Ela é nossa. Igual a da sua família. Se não a contarmos, alguém o fará, mas com outros interesses, geralmente escusos.

É muito fácil para uma pessoa que nunca plantou, nunca criou, ou mesmo nunca teve restrição alimentar (FOME), criticar quem produz comida. As prateleiras dos supermercados do Brasil estão cada vez mais fartas, porcionadas, pré-preparadas e historicamente cada vez mais acessíveis. Sim, ainda temos fome no Brasil, eu sei! Mas quem tem fome não critica o agro... A turma que critica o agro tem o berço cravado no asfalto e os pés virgens de contato com a terra. A distância entre quem produz e quem consome está se transformando num abismo intransponível à razoabilidade e ao bom censo desta turma. Produção e consumo não se conhecem, apesar de se tangenciarem ao mínimo três vezes por dia (nas refeições).

Considero-me um privilegiado. A maioria das pessoas tem que pagar para viajar e para estudar. Eu sou pago para estudar e depois para viajar, a fim de apresentar o que foi estudado por mim em palestras pelo Brasil... Nestas andanças, tive a oportunidade de conhecar pessoas, regiões, cidades, costumes, climas, sotaques, e sobretudo comidas diferentes. Isto abre a cabeça. “Ande à toa, mas não fique à toa”, já diz o ditado popular. Isto faz muita diferença.

Veja este raciocínio de alguém que entende muito de viagens: “um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver” (Amyr Klynk). Obs.: obrigado ao leitor/ouvinte Sergio L. Loiola pelo envio.

O agro tem que quebrar esta triste sina, de apanhar sem dó. Como está na bíblia, temos que dar a outra cara, depois de tomar um tapa. Ao invés de pedirmos direito de resposta, mandar cartinha de repúdio, pedir programa de TV com especialistas, etc, vamos nos aproximar de quem consome nossos produtos...

Uma sugestão? Porque não organizarmos um “farm day” com celebridades e com cidadãos comuns (urbanos), viajando até as fazendas, adicionando um pouco de terra no pé e um tanto de pó da viagem para eles nos conhecerem e captarmos o “antes e o depois”, em termos da percepção deles sobre o agro? Uma boa edição de vídeo e divulgação faria o restante...

Meu avô dizia que é preciso comer um bolsa de sal junto com alguém para o conhecer. Comer um pouco de sal junto com nossos consumidores (donas e donos de casa, médicos, professores e celebridades), na casa do agro, será a nossa única salvação para transformar histéricos doutores do desconhecido em árduos admiradores de nossa história. O pó da viagem, ele, sempre ele, está envolvido... Até a próxima semana!

Fotos em destaque: imagens do cotidiano.

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