O fakeburguer é realidade. Devemos perder o sono ou não? (Front)

  • Por Rodrigo Albuquerque - 10 de Agosto de 2019

Companheira(o) que carrega o pó da viagem,

Em janeiro, a revista The Economist declarou 2019 como “o ano do veganismo”. Na guia desta comitiva, o primeiro que desponta, são os chamados alimentos baseados em plantas (“plant-based”), que tentam imitar a carne bovina. Pergunto: devemos perder nosso sono?

1)    COMENTÁRIO DA CABINE DE COMANDO
No último episódio, comentei que precisávamos de uma importante melhoria na demanda (no caso externa) concomitante a uma redução de oferta para o boi tracionar mais forte neste segundo semestre. Das duas necessidades, está começando uma delas: a redução de oferta, a qual por ora, ainda não é intensa. Isto já pivotou o rumo dos preços para cima, porém mais devagar do que gostaríamos pois a outra parte de nossa necessidade (aumento da habilitação da exportação para China), não se definiu ainda... Alias, vamos combinar: não vou mais falar nisto. A hora que vier (deve vir/tomara que venha), fará seu efeito (que não é pouco).


A consequência: devagarinho a estabilidade começa a dar lugar para uma onda de recuperação da arroba. Já são vistos preços melhores no TO, PA, MT, MS, MG e SP. Não é uma explosão, mas o importante é que o movimento é positivo! Desta vez, foram R$ 0,43/@ a mais na semana, levando a média do Boi no Brasil para R$ 145,97/@ a prazo (a vaca tem deságio de 6.94%, estacionando em R$ 135,83/@ a prazo). Obs.: dados Scot/IBGE adaptados.

Tal como previmos, o atacado “respirou” com o início de mês, volta às aulas e, na sequência, dia dos Pais. Adiciona-se ainda o dólar, novamente perto de 4.00 e completa-se o cenário que desemboca em (leve/moderada) recuperação no curto prazo. A Mãe Dinah diz aos assinantes qual a expectativa para a sequência do mercado. Segue o jogo!

2)    RECADO DA “MÃE DINAH”
Qual será o próximo passo da arroba? Qualquer um, rs... Calma, não fica nervoso(a)... Sem notícia nova, acreditamos que o mercado siga em (leve/moderada) recuperação de preços por algumas semanas. Porém, um twitter tem o poder de mudar tudo rapidamente.

3)    BEEFRADAR (desidratação da estabilidade em favor da alta)
15% queda | 40% estabilidade | 45% alta

4)    HORA DO QUILO
“Conhecimento é poder. A informação é libertadora. A educação é a premissa do progresso, em toda sociedade, em toda família” (Kofi Annan)

5)    TO BEEF OR NOT TO BEEF, A SUA REFLEXÃO SEMANAL
Proponho alinharmos algo fundamental: nunca nos referirmos aos alimentos altamente processados, oriundos de misturas vegetais desconhecidas e carregadas de aditivos, os “plant-based”, como “carne vegetal”. Pelo amor de Deus! A carne é nobre demais para ser comparada a isto tudo! O máximo que considero razoável é chamar de “fakeburguer”.

6)    O LADO “B” DO BOI
No dia 20.02.19, honrosamente palestrei na Embrapa de Campo Grande/MS (Centro Nacional de Pesquisa em Gado de Corte) para tratar do tema: “O que o futuro nos reserva? O que preparamos para ele”? Naquela oportunidade, um dos meu slydes abordava alguns produtos concorrentes e entrantes, dentre os quais elenquei: os sucedâneos vegetais proteicos alternativos à carne bovina (plant based, hambúrguer vegetal ou fakeburguer), o músculo bovino feito em laboratório (lab grow meat) e as fontes proteicas alternativas (insetos).

Todos eles relacionados aos movimentos que nomeio de “ideologia nutricional” vistos hoje nas redes sociais, tais como: as refeições livres de carne bovina (meat-free meals), o vegetarianismo e o veganismo. Na oportunidade, disse que o fakeburguer seria o que “pegaria a guia”, pois isto já estava ocorrendo nos EUA, através da Impossible Burguer e Beyond Meat, como eu mesmo vi na Flórida, no final de 2018 (no meu Instagram tem vários vídeos).

De fato, temos visto várias marcas de hamburguer vegetal “pipocar” nas prateleiras dos supermercados ultimamente; o principal evento brasileiro que “cultua” o consumo de churrasco (bovino, principalmente, a Churrascada de São Paulo), exibiu uma estação com o tal fakeburguer.
Na sequência, atingindo o ápice da onda que estourou na praia pecuária (e principalmente no zapzap), a Marfrig Global Foods anunciou um acordo com outra gigante do agro, a ADM, para produzir o tal hamburguer vegetal (fakeburguer). A partir do anúncio tomou paulada de concorrente que enfrentará no novo mercado e também dos fornecedores de gado para abate. Rolou inclusive nota de repúdio de produtores.

É evidente que não sou o dono da verdade, nem tenho a pretensão de que você concorde comigo, mas não vejo motivo para o barulho.
Em primeiro lugar, uma empresa de capital aberto visa sempre gerar resultado para seus acionistas, visando sua sustentabilidade financeira. Encaro a atitude neste sentido. Seu compromisso maior sempre foi com seus acionistas e não com seus fornecedores. Para com estes últimos, ela tem as suas políticas comerciais e quem não concordar, basta não negociar.

Além disto, o mesmo fato (uma empresa entrar em um mercado aparentemente antagônico ao seu principal) ocorre em diversos outros setores, p.ex.: há dois anos, meu primo (eng. mecânico) me disse que uma das multinacionais “mega-gigantes” do automobilismo mundial estava investindo uma grana preta em patinetes, usados em alternativa ao seu principal produto: carros de luxo. E isto era muito antes da atual febre do patinetes coloridos...

Dos tempos em que lidava com o “suco da mimosa” e vivia sob as custas da tal "vaca landeza", lembro que marcas de leite A vendiam também suco de laranja, um dos seus maiores concorrentes no café da manhã. Empresas de refrigerantes vendem água mineral, suco... Recentemente a maior granja de ovos da América Latina (brasileira) lançou um produto a base de plantas para ser usado como alternativa ao ovo, seu principal produto! Será que o mesmo não iria ocorrer com a carne bovina?

E para finalizar: o produtor pode fazer a soja na safra de verão e o boi na safrinha, produzindo na sua “fábrica” (fazenda) os ingredientes do fakeburguer e do hamburguer de verdade, mas não quer que o frigorífico faça o mesmo? Ambos estão certos em fazer. Ambos tem que gerar valor aos seus donos e ponto final.

O único ponto que ressalvo na polêmica com o frigorífico é: o marketing usou e abusou na mensagem de “colar” a nova linha à carne bovina. Não precisava. Mas isto é opinião pessoal. Não considero o fato bom até para ela, pois os veganos não querem nem ler a palavra “animal” e a mensagem ligará o produto ao abate de animais, linha principal de trabalho do frigorífico.

Acho que estamos fazendo barulho demais e à toa, embora eu considere este tal “fakeburguer” nosso principal concorrente emergente. Tenho dito isto em palestras há alguns meses. A onda agora estourou de vez. Considero o fato desprezível para a cadeia bovina? Dá para olhar com desdém, tipo de quem está deitado em berço esplêndido? Não! Mas, nem de longe é o que mais me preocupa na cadeia da carne!

O que mais me preocupa são duas coisas: a primeira é ver que nosso consumidor está anos luz distante de nós, produtores e que não temos uma cadeia integrada, muito menos uma voz uníssona que represente a nós, pecuaristas, a fim de travar um diálogo com a turma que paga toda a cadeia: a dona e o dono de casa. Mas não... Ao invés de amadurecer como cadeia, ficamos discutindo rendimento de carcaça, nem um único padrão de toalete temos!

A segunda é que o ato de comprar carne "molinha" para as crianças do Brasil não tem sido tarefa fácil para a dona de casa, mesmo aquelas sem limitação financeira. Atendemos mal, na média, o consumidor que deseja uma boa carne para comer. Nosso consumidor tem se tornado cada vez mais exigente com relação às nossas responsabilidades (para com o animal, para com o alimento que produzimos, para com o social e o ambiental envolvido). Para piorar, temos perdido (por muito mais do que 7 x 1) a batalha da comunicação com a parcela urbana, que contabiliza 85% da população do Brasil.

Foi o Uber que impactou o táxi, ou o péssimo serviço de alguns taxistas que impactou a classe toda? Diria o caipira “deram o lado para alguém muntar”! Estamos dando o lado também? Se a resposta for “não”, creio que não temos que perder o sono com o “fakeburguer”, mas se for “sim”, hum... Até a próxima semana!

Fotos em destaque: como se diz na prática... no duro da seca! O Ipê amarelo ganhou a ajuda do “Nó de porco” para enfeitar nosso dia a dia na Fazenda do Brasil Central.

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