O boi vai muito além da carne

  • Por Rodrigo Albuquerque - 3 de Abril de 2021

Companheira(o) que carrega o pó da viagem,

Em linhas gerais, o fundamento do mercado permanece o mesmo que foi abordado recentemente em duas oportunidades: no episódio MiniFront 507 e 510, links a seguir:

https://gestaoderiscoempecuaria.com.br/noticias/noticia/o-segundo-trimestre-no-mesmo-trieiro-do-primeiro-minifront/

https://gestaoderiscoempecuaria.com.br/noticias/noticia/o-boi-em-2021:-a-arte-de-viver-o-hoje--minifront/

Após ler os episódios, a pergunta que fica é: como a arroba poderá cair fortemente no final de safra com esse roteiro? Uma “derretida” faz cada vez menos sentido, e digo mais: além de não cair, ela ensaia mais um “golinho” de aquecimento. Mas como?

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Vamos focar em algo bem interessante e que quase não está sendo falado: ao se analisar a relação entre o preço da venda de carne pelo frigorífico e o preço de compra da arroba pago ao pecuarista, vemos que de fato, ela está mais apertada para o lado da indústria.

Consideraremos o período entre jan/2019 até jun/2020 como um recorte antes da alta mais forte da arroba. Vale lembrar que a arroba valia cerca de R$ 220,00 no final de junho/2020 e de lá para cá, engatou uma alta de quase R$ 100,00. Dados adaptados do CEPEA nesse período de arroba “mais mansa” mostram que, sozinha, a carne remunerava a arroba com folga (ainda sobrava cerca de 4%). De julho/2020 para cá, com a arrancada da arroba, essa conta vem apertando para a indústria. Na média de 2021 o valor apurado pela venda da carne fica 3,3% abaixo do valor pago pela arroba. Bem diferente de outrora. 

Aí fica outro questionamento: como as indústrias que NÃO exportam estão seguindo adiante? Certamente com extrema dificuldade, mas temos que lembrar algo que está passando batido: o boi vai muito além da carne! Vejamos a seguir algumas informações da Scot...

O couro, em franca ascenção, está cotado por um valor 232% mais caro em relação a doze meses atrás (hoje em R$ 2,90/kg no Brasil Central). Na mesma linha, o sebo, impulsionado pela “boa demanda da indústria de higiene e biodiesel”, atingiu o pico nominal da série de quase duas décadas da Scot (R$ 6,05/kg no Brasil Central). Ambos experimentam uma oferta muito limitada, ecoando o que vivenciamos com o abate do boi gordo.

E como fica a conta da indústria quando a gente contabiliza tudo que o abate produz e não somente a carne? Um indicativo desse número (que a indústria guarda a sete chaves) é a margem de comercialização que a Scot Consultoria publica diariamente. 

São vários indicadores, mas eu gosto mais do “Equivalente Scot Carcaça”, que é a diferença entre a arroba e o faturamento do frigorífico de mercado interno que não vende carne desossada, ou seja, aquele que vende carcaça (carne com osso), couro, sebo, miúdos, derivados e subprodutos. Ele é muito aderente ao mercado. Obs.: não se trata da margem de lucro, pois os custos não são contabilizados.

Entre jan/2019 e jun/2020, o somatório da venda de todos os produtos produzidos pelo abate de um bovino, pagavam o valor da arroba em ainda sobrava cerca de 17.7% de margem de comercialização. Desde jul/2020 até hoje, sobra 13,4%! Sim, é menos do que antes, mas ao se analisar além da carne, vemos que a alta desses outros produtos provenientes do abate tem ajudado a atenuar o “problema” da arroba aquecida para a indústria. Obs.: claro que ela também está vendo seus custos subirem até por conta da ociosidade... De fato, não está brincadeira...

Conclusão: é evidente que a arroba, principal custo da indústria, é mais do que fundamental na apuração da margem de lucro dela e vê-la em disparada complica a conta. Mas ficou claro que aumentando a abrangência da análise, vemos que o aperto na carne pode ter algum atenuante nos demais produtos do abate e isso certamente está ajudando de alguma forma a indústria do mercado interno, setor fundamental para o que a firmeza de preço da arroba siga. A situação não está nada fácil para os frigoríficos menores (não exportadores) mas há algumas coisas positivas, nesse mar de dificuldades.  Até a próxima, com muita saúde! 

Último recado: os assinantes do Front Premium vão receber os gráficos que demonstram visualmente o raciocínio desse episódio ao longo dos próximos dias, o que deixará mais claro ainda o que estamos elaborando aqui. Mais uma exclusividade para quem nos dá a honra da assinatura. Grato, Rodrigo Albuquerque!

Obs.: nenhum conteúdo do Notícias do Front deve ser entendido como recomendação de venda/compra de qualquer ativo ou derivativo agrícola, mas sim como opiniões pessoais, compartilhando algumas vezes nossa própria carteira de investimentos.

CASO QUEIRA DESFRUTAR O CONTEÚDO DO EPISÓDIO ACIMA, NA FORMA DE ÁUDIO (PODCAST), BASTA APERTAR O PLAY:



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