O bezerro de R$ 210 por arroba tem viabilidade para recria/engorda? (Front)

  • Por Rodrigo Albuquerque - 19 de Julho de 2019

Companheira(o) que carrega o pó da viagem,

“Este povo pagando reposição nestes valores, estão loucos”? A frase é recorrente, mas a conta que tem por trás dela, não! Vamos dissecá-la neste episódio.

1)    COMENTÁRIO DA CABINE DE COMANDO
Cenário parecido ao da última semana, mas nesta eu destaco a heterogeneidade do mercado, alerta feito aos assinantes que reforço aqui: “tem frigorífico com escala mais longa que esperança de pobre, quase ao lado de outros que, apesar de não estarem apertados, não estão tão "forgados". E tudo isto dentro de uma mesma região”!


Credito este fato à época do ano: fase de transição pasto/confinamento. Varia muito, de frigorífico para frigorífico, o acesso aos boi de semi/TIP, o acesso aos animais originados por contrato prévio e o acesso aos bois próprios. Logo, há indústrias com mais de 10 dias de escala e outras com muito menos. Há inclusive diferenças importantes entre plantas de mesma empresa. Obs.: além do que foi citado, o frio colaborou e quem sabe, um certo nível de represamento das vendas do início de junho, que podem ter sido postergadas para julho (problema China), permitindo estas escalas um tanto mais folgadas agora.

Pensa num mercado esquisito! Mesmo os frigoríficos que estão com escala longa não ficam tranquilos em perder gado. E tão pouco pressionam o mercado fortemente. Prova disto é que o preço médio do boi no Brasil recuou próximo a R$0,50/@ nesta semana e agora marca R$ 145,52/@ a prazo, com deságio médio de 6,94% para a vaca (dados Scot/IBGE, adaptados).

Oferta abundante de gado não é algo nenhum pouco unânime. De quarta-feira pra cá, as escalas mais longas ameaçaram ceder (ex.: SP). O meio de mês não colabora para o escoamento de carne, mas não há gordura para queimar em termos de redução de arroba. Resultado: tendência para lateralidade. Volto a dizer: que venha agosto! Segue o jogo!

2)    RECADO DA “MÃE DINAH”
A B3 ameaça acordar. Talvez uma onda de recuperação do bovino não fique mais "a gosto de Deus", mas sim para agosto (ou quem sabe antes)...

3)    BEEFRADAR (por ora, sem alteração)
20% queda | 45% estabilidade | 35% alta

4)    HORA DO QUILO

Em 2019 tem ficado cada vez mais evidente a diferenciação no momento da venda em função das características dos animais: novilhas com preço balcão “institucionalizado” e maior que  as ofertas de vacas; boiadas com certificações/características passíveis de exportação, especialmente de animais com 30 meses ou menos, tem maiores preços e maior liquidez. Aos poucos, o mercado vai entendendo que existem boiadas e boiadas...

5)    TO BEEF OR NOT TO BEEF, A SUA REFLEXÃO SEMANAL
Tem sido frequente falarmos em dificuldade para a aquisição de PUTs neste ano. O “Mexendo na Bolsa” desta semana relata exatamente o contrário. Mais um Conteúdo Premium feito em parceria com o Leandro Bovo da Radar Investimentos: https://gestaoderiscoempecuaria.com.br/noticias/lista/conteudo-premium/

6)    O LADO “B” DO BOI
Preparado para as contas? Vamos fazer o papel e o lápis trabalharem? Só se for agora... Peguei como exemplo um bezerro nelore “extra” de 8 meses, comprado em Goiás pelo valor de R$ 1.375,00, com 1% de comissão, frete de R$ 20,00/cab e 195kg de peso vivo. Isto dará uma @ comprada pelo valor de R$ 216,73 colocada, o que significa dizer que ela carrega um ágio de 55% aproximadamente em relação ao boi gordo no ato da compra. Pesado, não é?
Qual seria o plano de voo (planejamento produtivo) para este animal? Uma recria, com lotação média de 1.4 UA/Há entre a segunda quinzena de julho e o dia 15.07.2020, período aproximado de 11,5 meses (com índice de mortalidade de 1.4%). O desempenho projetado para este animal e sua suplementação mineral seria:

•    De 31.07.19 até 31.10.19: GMD 0,200 kg/dia | suplemento proteico 0.1% do PV;
•    De 01.11.19 até 29.02.20: GMD 0,750 kg/dia | suplemento mineral aditivado 0.03% PV;
•    De 01.03.20 até 20.06.20: GMD 0,700 kg/dia | suplemento prot/energético 0.3% PV;
•    De 21.06.20 até 15.07.20: GMD 0,600 kg/dia | suplemento prot/energético 0.5% PV;

A “viagem” desta recria, de praticamente um ano, ocorreria frente a um desembolso mensal de R$ 66,47/cab (Benchmark Inttegra 17/18 – recria/engorda). Considerando o RC de 50% na entrada e na saída, este animal terá produzido 6.76@, com GMD de 0,578 kg/d e peso vivo final de 397,75kg (13.26@). Obs.: números do histórico recente da propriedade da família.

Cada uma das 6.76@ terá custado R$ 113,49, o que reduzirá o custo de estoque do boi magro “pronto” para R$ 164,11 (o estoque inicial custava R$ 216,73/@).
Em seguida, no dia 17.07.2020, este animal entrará em uma engorda confinada por 105 dias, sendo abatido no dia 31.10.2020 com 555,25 kg de peso vivo. O GMD do confinamento foi previsto como 1,5 kg/d, com um GDC de 1,054 kg/d (RC de 55.75% e rendimento do ganho de 70.27%), a um custo total de R$ 126,88/@ colocada no período de confinamento (estão considerados os custos de envio deste animal para boitel, com frente de R$ 30,00/cab, despesas com GTA de transferência e as do abate). Obs.: mortalidade de 0.3% no confinamento.

Ao final do período do confinamento, o custo das arrobas em estoque (custo da arroba a ser vendida ou, em última análise, custo de produção do boi gordo) terá sido de R$ 150,80/@. Considerando o rendimento de carcaça, o animal seria abatido com 20.64@, aos 23.06 meses.

Agora é a hora da “onça beber água”: qual é o preço de venda estimado para out/20? Para chegar nesta resposta, vamos considerar o seguinte:
•    DF da base médio dos últimos 6 anos (2013 a 2018) para out é de -6.14% em Goiás. Obs.: fonte dos dados é o CEPEA, adaptado pelo Front;
•    B3 posiciona o out/19 ao redor de R$ 163,50/@, no momento em que escrevo este (valor considerado pelo Front como commodity, ou seja, sem prêmios EU, Hilton, etc);
•    Considerando o DF de Base, a B3 posiciona o out/19 em GO em R$ 153,46/@, adicionado de R$ 3/@ de certificação EU, daria R$ 156,46/@ de preço final em out/19;
•    Para a venda da arroba gorda em out/20, consideramos R$ 164,80/@ de preço final (já inclusa certificação EU de R$ 3), o que significa dizer que haveria uma variação positiva de +5.3% de 2020 sobre 2019, considerada perfeitamente possível por mim (até um pouco modesta pois teríamos pouco mais que a reposição da inflação para a arroba);
•    Vendendo a boiada por R$ 164,80, haverá uma margem de R$ 14,00/@ (R$ 164,80 de preço de venda – R$ 150,80 de custo de produção);
•    Haverá lucro líquido final de R$ 244,44/cab, descontando as perdas com mortalidade, o que dará uma rentabilidade de 1.05% durante cada mês do ciclo produtivo de 15 meses;
•    O lucro líquido da boiada abatida, já descontando a mortalidade, convertido em R$/há utilizados na recria (realizada “em casa”) terá sido de R$ 648,36/ha (incluindo o resultado do confinamento). Obs.: sei que incluir o resultado do boitel nesta conta não é consenso, pois a engorda não foi feita “em casa”. Mas durante a engorda confinada, o pasto estará “descansando” (nenhuma produção foi considerada neste período no pasto);
•    O lucro seria “zerado” se as arrobas de 2020 fossem vendidas por R$ 150,80, ou seja, se houver uma queda de 3,6% do preço de out/20 frente à atual projeção para out/19.

E aí? Está bom para você? O planejamento produtivo da recria está desafiador? Sim, mas é factível e digo que ele é necessário para se aniquilar o ágio da compra. Uma reposição aquecida exige mais da recria/engorda. Porém, não dá para dizer que não há viabilidade. Obs.: adaptações tem que ser feitas para cada estado. Recomendo que você faça o mesmo com seus números!

Por fim: nossa economia flerta com as menores taxas de juros reais da história. Ter 1.05% AM por um longo período não pode ser encarado como um resultado ruim, de forma alguma, ainda mais com uma precificação de venda nada desafiadora, como a que foi apresentada! Será que todo mundo está louco mesmo? Sim, alguns estão, eu sei. Mas o que vale mesmo é a conta, não o comentário em zapzap! E cada um tem a sua! Até a próxima semana!

Fotos em destaque: nada como as férias na Fazenda com a família!

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