Indicador: culpado, cúmplice ou vítima? (Front)

  • Por Rodrigo Albuquerque - 22 de Fevereiro de 2020

Companheira(o) que carrega o pó da viagem,

O Indicador do boi gordo CEPEA/B3 está causando alvoroço no mercado. Compartilho um mini raio-x e algumas considerações sobre o fato... Bora?

1)    RECADO DA “MÃE DINAH”
Imagine seguro de carro sem a tabela FIPE. Como você faria para vender seu usado? Como você faria para se proteger? Carro sem FIPE é igual ao boi sem um CEPEA forte. Colabore produtor! Colabore CEPEA! Colabore frigorífico! Colabore B3! O indicador justo é uma tarefa factível somente se todos construírem...

2)    BEEFRADAR (querendo “tomar um tipo melhor”)
15% queda | 40% estabilidade | 45% alta

3)    O LADO “B” DO BOI
Antes de mais nada, devo pontuar: 1. acredito na Instituição centenária da USP, na Esalq, no CEPEA e nas pessoas que lá estão (digo com conhecimento de causa por ser filho da academia da USP); 2. Antecipo que não vejo ninguém 100% correto nesta celeuma, incluso principalmente parte dos pecuaristas, precisamente os que não colaboram, mas reclamam e usam o CEPEA para balizar seus negócios; 3. Engana-se quem pensa que a questão concerne apenas aqueles “especuladores que militam com o bovino na bolsa” (basta ver como a indústria automobilística se resolve muito bem com a tabela FIPE, ajustando seguros e negócios Brasil afora); 4. Se existe algo errado com alguma coisa, a culpa sempre será do dono, que no caso em tela, não são os pecuaristas, nem o CEPEA, nem os frigoríficos, e sim a bolsa de valores (B3).


Isto posto, digo que fiz um levantamento histórico de nossa base de dados, em função das acalouradas discussões à cerca do tal índice. Em resumo, havia uma grande expectativa em 2020, visto que a partir de 01/jan as novas regras do cálculo diário do valor da arroba entrariam em vigor. Elas trazem a ponderação do preço pelo volume de cada negócio e a inclusão dos frigoríficos de inspeção estadual do estado de SP, entre outros. Mas parece que a coisa piorou.

Sendo assim, comecei a estudar os números de maneira simples mas cheguei a algumas conclusões interessantes. Usei as informações de mínima e máxima do indicador publicadas diariamente pela B3 (http://www.b3.com.br/pt_br/market-data-e-indices/servicos-de-dados/market-data/consultas/mercado-de-derivativos/indicadores/indicadores-agropecuarios/), bem como os dados da Radar Investimentos (Necton) que monitora a praça paulista e que consideramos muito aderentes à realidade de mercado.

Analisei números planilhados diariamente por mim desde 2018/2019, e cheguei em algumas considerações importantes, comparando a máxima, média e mínima dos levantamentos do CEPEA com a referência de mercado citada. Vamos lá:

1.    Em geral, a máxima da amostra captada pela Esalq e que dá origem ao indicador tem alinhamento com as informações de mercado. Do final do primeiro semestre de 2019 para cá, a máxima do indicador ficou 0.9% acima da média diária da máxima Radar, o que sinaliza que esforços dos corretores de bolsa, pecuaristas, etc, estão sendo razoavelmente efetivos em colocar as máximas reais no levantamento feito pela USP;

2.    Em geral, o próprio indicador não distoa muito do preço médio coletado pela referência de mercado escolhida por mim. A média diária dos últimos oito meses do indicador ficou 0.31% abaixo do número médio anunciado diariamente pela Radar. Entretanto, a aderência tem diminuído de dez/2019 para cá. Para se ter ideia, o indicador está 1.84% abaixo dos dados da Radar neste mês de fevereiro (01 até 19/02). A diferença aumentou quase 6 vezes frente ao histórico. Vamos adiante;


3.    Chegamos à mínima do indicador! Aqui temos o pico da atual perda de aderência com a realidade de mercado... Para começar, comparei a mínima do intervalo de preços com a máxima, ambos publicados pelo CEPEA. Entre jan/2018 até o final de out/19 o preço mínimo era em média 5.71% abaixo do valor máximo. Entre nov/19 até hoje, a mínima fica 11.8% abaixo da máxima, e nos últimos quinze dias, tem ficado 15.3% abaixo da máxima. Em outras palavras, a dispersão da amostra do CEPEA está altíssima e muito desalinhada com seu histórico, chegando ao cúmulo de orbitar entre R$ 15 a R$ 22/@ abaixo das mínimas vistas pela Radar no mercado real. Em alguns dias, as mínimas do boi gordo ficaram abaixo das mínimas da arroba da vaca gorda em todas as 5 praças do estado de SP (17/02/2020). Não há conexão com a realidade. Veja nos dois gráficos abaixo:






Concluo que há uma parte do mercado pecuário que deseja ver as referências de preços desacreditadas e para tanto, entendeu como a amostragem do CEPEA funciona ao ponto de conseguir causar distorção no levantamento. Só um tolo ou alguém muito mal intencionado pode preferir um mercado sem referências. E pelo jeito, esta turma aprendeu a forma de fazer o “mal feito”. Perdemos todos nós, os pecuaristas que operam em bolsa e os que não operam, pois da mesma forma que seria difícil fazer seguro de carro sem a tabela FIPE, um CEPEA forte, transparente e aderente ao mercado é o nosso desejo e o que viabiliza o hedge.

Não queremos que o boi caia ou suba, queremos verdade nos indicadores. Só isto!

Espero que a dona da festa, a B3, tome as devidas providências. Parece que na quinta (20/fev) começou a corrigir... Tomara que seja o início das providências. Até a próxima semana!

Fotos em destaque: muita tarefa em Jussara/GO, com a mudança da fase de produção do capim!

CASO QUEIRA DESFRUTAR O CONTEÚDO DO EPISÓDIO ACIMA, NA FORMA DE ÁUDIO (PODCAST), BASTA APERTAR O PLAY:

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