Febre do porco ou do exportador de carne? (Front)

  • Por Rodrigo Albuquerque - 25 de Maio de 2019

Companheira(o) que carrega o pó da viagem,

Há três anos eu digo: “o que a China fez no mercado de soja do Brasil vai ser pouco, perto do que ela vai fazer no setor bovino”. O boleto chegou. Vamos ver?

1)    COMENTÁRIO DA CABINE DE COMANDO
A “Tia Safra” (aquela tia “mala”) chega neste fim de semana! Mas avisou que vem com uma mala pequena desta vez, comparando com os últimos anos. Quem ainda não entendeu o que os americanos chamam de “weather market” (mercado de clima), está aí uma ótima oportunidade: os frigoríficos esperam (ansiosamente) que a redução de temperatura ambiente também esfrie a coragem do pecuarista em reter os animais de pasto. O seu “não”, pecuarista, o frigorífico já tem... Ele vai tentar o seu “sim” para um preço menor. Ele testa a redução de oferta e se comprar, testa de novo outra redução. Se comprar, testa de novo..., até você dizer “não” e o mercado achar o fundo da safra. Você já sabe mas não custa avisar (como diz a aeromoça da Azul)!


As compras de boiadas melhoraram, avançando em alguns casos para junho, ao mesmo tempo que a dificuldade de escoamento de carne (mercado interno) endossa as tentativas de pressão no físico. É o que se espera de uma indústria que gerencia suas margens, beneficiadas pelas excelentes vendas externas (muito pior para os não exportadores). Caso os frigoríficos não consigam comprar o bovino mais em conta agora, vai comprar quando? A ideia é formar um piso de fim de safra mais baixo, pois é a partir dele que a entressafra vai arrancar. Faríamos o mesmo, se nosso pé estivesse na “butina” deles. Não critique. Entenda e antecipe! Segue o pouso suave (soft landing) de final de safra e também... Segue o jogo!

2)    RECADO DA “MÃE DINAH”
“Bem amigos da Globo, chegar é uma coisa, passar é outra”, diz o Galvão Bueno nas corridas, quando um carro cola no outro. Tentar baixar a arroba é uma coisa, comprar no recuo é outra”.

3)    BEEFRADAR (recuperação do percentil de queda)
45% queda | 30% estabilidade | 25% alta

4)    HORA DO QUILO
Falamos muito em proteção para o milho nos últimos episódios do “Conteúdo Prêmium”. Este Mercado Minuto trás um belo exemplo de um assinante que vai olhar de camarote este mercado, beneficiando-se de qualquer alta ou baixa a partir de agora. No nosso caso, usamos o “Uber Pecuário” da Agropecuária Grande Lago (travando as diárias e antecipando o nosso contrato/envio de nossa engorda confinada de 2019). Também vamos para o camarote! Link: https://gestaoderiscoempecuaria.com.br/noticias/

5)    TO BEEF OR NOT TO BEEF, A SUA REFLEXÃO SEMANAL
Tudo indica que o bovino brasileiro vai cada vez mais para a China. Mas e o seu boi vai? Há alinhamento entre as carcaças demandadas e as que você produz?!? Ex.: limite de idade, etc.

6)    O LADO “B” DO BOI
Para palestrar sobre o tema “tendências do mercado bovino”, nos atuais dias temos que falar muito do tal porco e sua febre. Há semanas este tema estava na pauta, mas esperava uma direcionamento melhor. Revisei as anotações da palestra do Alexandre Mendonça de Barros, que tive a oportunidade de ver no dia 12.04.19 (evento da Agropecuária Grande Lago). Mergulhei na pesquisa que incluiu a OIE (Organização Internacional de Epizootias – entidade técnica que se destina aos assuntos sanitários do planeta, tal como uma “OMS da saúde animal”). O trem é mais feio que inventário de pobre endividado. Vamos aos fatos:

1. A doença dos porcos em tela chama-se peste suína africana (PSA ou ASF em inglês) e não tem tratamento, não tem cura, apresentando uma altíssimo nível de contágio e de letalidade em todas as faixas etárias (mata quase 100%). Os sinais são hemorrágicos e devem ser diferenciados da peste suína clássica. Em geral, a fonte de infecção são restos de alimentos contendo derivados de suínos contaminados com o vírus;

2. Até 31.07.18, haviam focos na Europa ocidental e na África apenas. Eles se esparramaram dramaticamente para a Ásia, notadamente China, nos últimos nove meses (começaram em criações caseiras de porcos chineses), indo para outros países;

3. O vírus é extremamente resistente. Já foram detectadas amostras com vírus viáveis em carne cozida ou congelada (até 4 anos pós-processamento). Não ocorrem sintomas em humanos, sendo acometidos apenas os suídeos domésticos e selvagens (javalis e seus cruzamentos). É uma doença que produz significativas consequências socioeconômicas, calculadas em cerca de US$ 5,5 bilhões no Brasil e US$ 16.5 bi nos EUA (só no 1º ano);

4. A contenção da doença exige o abate, incineração e enterramento dos animais, além de um raio de isolamento de 100km, do qual não pode haver saída de animais ou de carne. O problema é controlar os animais selvagens, além do mercado negro (porcos/carne), visto que uma vez delimitado um foco, os preços “derretem” e a ilegalidade ocorre;

5. A carne de suínos é de longe a mais consumida no mundo com quase 115 milhões de ton/ano (bovina soma 60 milhões de toneladas ao redor do planeta). A China representa 50% do consumo mundial de carne suína e também 50% das matrizes do planeta;

6. Em razão da enfermidade, estão sendo abatidos entre 20% a 40% do rebanho chinês, o que faz sobrar carne neste momento por lá. Há super oferta hoje, portanto;

7. O problema bombástico é a quebra de produção futura que vai ocorrer como consequência do atual abate. Estimativas apontam demanda entre 12 a 20 milhões ton/ano de carne suína a fim de repor o que vai faltar na produção;

8. Entretanto, o comércio mundial de carne suína é de apenas 8.5 milhões ton/ano. Para se ter ideia da gravidade, os EUA exportam 1.8 milhões ton/ano, sendo o maior do globo. Somos o segundo, com aproximadamente 0.8 milhões ton/ano de carne suína;

9. Caso as piores previsões de abate do rebanho chinês se confirmem, algo como 60% até 75% do volume mundial comercializado das três carnes juntas (bovinos, suínos e frangos), serão necessárias para repor a “dispensa” vazia dos asiáticos;

10. Na escala de substituição do cidadão chinês, após o suíno, vem o bovino e então o frango. Ambas serão beneficiadas, assim como: leite, ovos e proteínas alternativas;

11. Não há paralelo na história para o fato em questão, pois agora temos 1.3 bilhões de pessoas com renda para consumo de proteína, o que não era verdade antes na China;

12. Haverá uma pressão exportadora no Brasil muito forte, extensa, privilegiando preços e estimulando a produção de proteína (não só no Brasil, mas ao redor do planeta);

13. Ganham com este surto os países que conseguirem manter sua suinocultura livre do focos, além dos que têm como exportar bovinos, frango, leite, ovos, etc;

14. Perdem os vendedores do pacote de tecnologia, os vendedores do complexo de grãos (haverá menor demanda no curto prazo) e também o consumidor, que pode ficar inseguro quando ao problema;

Entendeu porque esta é considerada a mais terrível enfermidade dos suínos? Do ponto de vista comercial, já temos consequências positivas em todas as proteínas exportadas, e de outra sorte, efeitos negativos nos grãos (contabalançando os positivos na soja decorrentes da guerra comercial EUA/China). As consequências serão inimagináveis caso as piores previsões de redução do rebanho chinês se concretizem. Os efeitos positivos nas carnes se intensificarão em alguns meses, entre 2019/2020, na dependência de quando cessará o surgimento de novos focos da doença.

Alguns meses após a contenção do surto, ocorrerá o “efeito rebote”, com a recomposição do rebanho suíno, fato que demandará uma enormidade de grãos. Portanto, há um timing diferente entre quem produz proteína e quem produz grão. A sequência natural tenderá beneficiar primeiro os produtores de proteína e posteriormente os de grãos.

Mas não se enganem! Um povo de tradição comercial milenar não vai se render facilmente. Por mais que desejamos, creio não fazer sentido para os chineses liberar “numa tacada” as 78 plantas pleiteadas pelo Brasil agora, visto que o problema de falta de proteína deles é futuro e não atual. Eles vão querer negociar melhor... Não caia no discurso baixista, se vier a aprovação de “apenas 20 plantas”! Tomara que eu esteja errado, mas a febre do porco é também uma grande febre dos exportadores brasileiros atrás do lucro. Bons ventos virão, mas não será fácil fazer o “negócio da China” justamente em cima da China. Gerencie suas expectativas! Até a próxima!


Fotos em destaque: curral do aeroporto de Viracopos, que serviu de escritório e de onde eu produzi o Front desta semana; pasto de braquiária de qualidade top em pleno mês de maio, dentro de Campo Grande/MS, juntamente com uma foto de minha participação ao vivo no Canal do Boi da última quarta-feira (22.05), com os amigos Jorge Zaidan e João Pedro. Detalhes no nosso Instagram: @noticias_do_front.

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