Estresse de oferta? (Front)

  • Por Rodrigo Albuquerque - 16 de Agosto de 2019

Companheira(o) que carrega o pó da viagem,

Resiliência, segundo a wikipedia, “é a capacidade de o indivíduo lidar com problemas, adaptar-se a mudanças, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas”. A oferta para abate está cedendo, porém está também resiliente. E os preços do segundo semestre?

1)    COMENTÁRIO DA CABINE DE COMANDO
Mercado firme! Nada a acrescentar ao que foi descrito no último episódio: estamos numa “pernada” de recuperação, de intensidade leve a moderada. O nível de retomada (até agora) está bem abaixo do que os pecuaristas esperam (e precisam). Se é ruim pelo lado da intensidade (continuamos precisando de notícias novas para termos “coice de preço para cima”), de outra sorte, é bom porquê a variação é positiva e tende a continuar. Obs.: “firme” é firme, não é explosivo.


Varia de estado para estado a redução de oferta, o que faz variar também, o aquecimento de cada praça. A média Brasil do boi gordo teve alta de R$ 0,47/@ (variação positiva pela terceira semana seguida) e encerrou a semana em R$ 146,44/@ a prazo (vaca com deságio de 6.9%, em R$ 136,34/@ a prazo). Apenas SC, MA e o Triângulo de MG tiveram variação negativa na semana. Obs.: dados Scot/IBGE adaptados.

O bom é que a carne no atacado não cedeu após o dia dos Pais (estoques menores?) e que começamos a ver alguma disputa pelas boiadas por parte dos frigoríficos menores, sendo que alguns sinalizam procura pelo boi de maneira ativa (até o personnalité está de volta, ainda tímido). Quem precisa de boi China, paga melhor, mas tem achado a mercadoria. Há ainda uma terceira vertente: os frigoríficos que tem posição no boi a termo, bem confortáveis de escala.

Fica claro que não há “apenas um mercado do boi” e fica a pertunta: “cadê o estresse de oferta”? Tratamos disto adiante junto aos assinantes. Segue o jogo!

2)    RECADO DA “MÃE DINAH”
O principal insumo do aquecimento de qualquer contrato futuro do boi na B3 é o tempo até o seu vencimento e a expectativa positiva. O tempo está se corroendo, pensando no V19. Precisamos de novas notícias, portanto... Ah, e também de um indicador aderente ao mercado!

3)    BEEFRADAR (manutenção do cenário de alta leve/moderada)
15% queda | 40% estabilidade | 45% alta

4)    HORA DO QUILO
“É impossível viver sem fracassar em algo, a não ser que você viva tão cautelosamente que é como se você nem estivesse vivendo – o que também é um fracasso” (JK Rowling)

5)    TO BEEF OR NOT TO BEEF, A SUA REFLEXÃO SEMANAL
Já deu uma olhada em nosso Instagram? Temos usado a rede social para imputs sobre o mercado, nossos eventos, etc. Acesse: https://www.instagram.com/noticias_do_front/

6)    O LADO “B” DO BOI
Quando digo que a oferta de gado para abate está resiliente, quero dizer que ela está “teimando” em se manter em níveis mais altos, apesar da “pressão de situações adversas”.

Primeiramente, afirmo: a oferta para abate, de fato, está se mantendo em níveis altos. Os dados do primeiro e do segundo trimestres confirmam. A Agrifatto publicou uma análise prévia mostrando que o T2/19 apresentou aumento de 4,1% no volume de animais abatidos frente ao T2/18. A produção de carcaça aumentou mais ainda, anotando uma variação positiva de 5.5% YoY. Importante se considerar que há a sazonalidade, favorecendo o abate do primeiro semestre em função da safra de capim, mas independente disto, o volume de abate (e carne produzida) veio firme demais.

Seguindo a definição de resiliência, qual seria a “pressão”, no sentido de reduzir a oferta para abate, que não está conseguindo produzir este efeito? Em nossa opinião:
•    o fato de estarmos há mais de 4 anos do atual recorde real de valores da arroba (ou seja, um longo período de preços não atrativos), em tese, poderia desestimular os produtores;
•    Desde maio o termômetro dos preços futuros da B3 têm mostrado um boi com dificuldade de manter as previsões mais otimistas para a entressafra (outubro passou a ficar longe do nível de R$ 165/@) e ao mesmo tempo (para complicar mais), a B3 sinaliza no mesmo período um milho que frustra a expectativa de aumento do poder de compra do pecuarista, apesar da safrinha recorde. Este fato poderia, em tese, afetar os sistemas de suplementação intensiva;
•    a reposição aquecida poderia reduzir o volume de fêmeas abatidas, por incentivar a retenção e também dificultar a originação de animais para engorda.

Apesar dos três fatores listados (e outros que podem haver), a oferta segue firme na base anual, ofertando carcaças mais pesadas, inclusive fêmeas. Importante: mesmo neste momento de transição de pasto para confinamento a resiliência da oferta é notada pois ela declina em um grau muito menos intenso do que seria esperado. Há escalas de boi com certificação EUROPA preenchidas (em alguns estados) por duas semanas com folga (notadamente pelo boi a termo). Tudo dava a pinta de que teríamos um estresse forte de oferta. Não posso negar: quase joguei esta toalha.

Qual é a consequência? Temos que “engolir” esta carne, seja via interna, seja externa. A via externa vai indo muito bem (poderia estar ainda melhor), mas não podemos dizer o mesmo da interna. Logo, o atacado permanece sendo nosso freio de mão. Acredito em ascenção da arroba, mas não no nível que gostaríamos.

Para um maior calor no mercado, precisamos de novas notícias (elas podem vir, mas o mercado meio que deixou de esperá-las).

E para entender melhor a origem desta “teimosia” da oferta, vamos usar a técnica dos “4 porquês”, para chegarmos à “causa raiz” (como faz um guri custoso com sua mãe). Vamos lá:
1.    Por que a oferta de gado para abate pós-final da safra de capim não está declinando dramativamente em nível Brasil? Porque cada vez mais fazendas suplementam gado mais fortemente (semi, TIP ou confinamento tradicional) a fim de aliviar a carga animal sob as pastagens na época de menor produção de massa de forragem do ano;
2.    Por que há necessidade de alívio de pastagens? Porque, em geral, as fazendas estão procurando passar a época das águas com uma carga animal cada vez maior, a fim de produzir a arroba mais barata do ano;
3.    Por que mais fazendas têm procurado passar a fase de águas com uma lotação animal mais alta? Por que precisam entregar um resultado financeiro mais robusto;
4.    Por que precisam entregar resultado financeiro maior? Porque a margem de lucro por unidade produzida (arroba) caiu muito nas últimas décadas! Só resta produzir mais.

Está aí o real motivo da resiliência de oferta que tem dificultado o (tradicional e esperado) arranque da arroba neste início de segundo semestre: cada vez mais fazendas tem procurado subir o nível da “escada de 1.000 degraus” da intensificação pecuária. As técnicas de suplementação animal e produção/colheita de massa de capim nas águas tem viabilizado esta escalada. Em outras palavras, a entressafra tem ficado menos perceptível, de modo que o volume de animais prontos para abate tem se comportado de forma mais regular ao longo dos últimos anos. É uma mudança estrutural em curso no setor produtivo.

Para finalizar, vai meu conselho: não adianta reclamar do boi a termo, do boi de confinamento próprio da indústria, ou então, dizer que vai dispensar o pacote tecnológico. Todos eles são como culpar o sofá sob o qual ocorreu a traição do cônjuge.

A saída para enfrentar estes novos e desafiantes tempos sugiro ser a busca do equilíbrio na melhoria da empresa pecuária: se você vai melhorar a sua produtividade em 10%, deve também melhorar no mínimo em 10% o nível da sua gestão de risco de preço, de risco de escala, gestão administrativa, gestão financeira, de RH etc... Equilíbrio é a palavra da vida. Ah, uma dose cavalar de resiliência ajuda muito! A oferta resiliente exige um pecuarista resiliente! Até a próxima semana!

Fotos em destaque: evento na última quarta-feira em Guaraniaçu/PR, juntamente com o time da UPL e da Fertizan. Excelentes momentos!

Artigos Relacionados

Comentários ( 0)

Escreva um comentário

Next Sites

Oops... Página não encontrada.

Desculpe, mas a página que está a procura não existe.