Estratégia de proteção para o segundo semestre (Front)

  • Por Rodrigo Albuquerque - 16 de Maio de 2020

Companheira(o) que carrega o pó da viagem,

Eu não estou preocupado com o que vai ocorrer com o preço da arroba no segundo semestre de 2020. Sabe porquê?

1)    RECADO DA “MÃE DINAH”
O mercado vai assoprar com uma mão e bater com a outra? Quem sabe ele não vai poupar o pecuarista de um fundo de safra pressionado em troca de uma entressafra sem sobressaltos de valorização da arroba? Lembre-se: tudo pode acontecer, inclusive não acontecer nada!

2)    BEEFRADAR (estabilidade cresce como tendência dominante de maneira forte)
20% queda | 65% estabilidade | 15% alta

3)    O LADO “B” DO BOI
A resposta à pergunta que abre esta missiva eletrônica é simples, mas começa bem longe, lá em nov/2019. Vou resumi-la: no dia 20/11/2019, quando fui ao evento anual da Radar Investimentos, decidi vender toda a safra 19/20 numa só tacada porque entendia que uma alta de 35 a 40% ofertada pelo mercado na ocasião, me bastava e seria difícil de ser realizada (out/20 estava acima de R$ 220/@). Para tanto, tentei fazer um termo de preço fixo com o frigorífico que mantinha relacionamento, afinal de contas, “peitar” o mercado futuro com volatilidade gigante, muitos lotes e alguma restrição de liquidez, não meu perfil... Resultado: tomei uma porteirada na cara (nem me retornaram as tentativas de contato). Mal sabia que este seria o menor dos problemas de 2020...


Para não perder a oportunidade, desenvolvi um contrato de boi a termo para a safra 19/20 com outra indústria, fato que me custou alguns dias... De maneira adicional, comprei imediatamente opções (PUTs) que protegiam meu custo de produção e alguma margem, pois era o que restava a fazer durante o lapso de tempo em que o novo contrato era gerado. Em resumo, ele foi gestado mas ficou debaixo da manga, pois o mercado retrocedeu durante a elaboração final do acordo de termo. Menos mal que as PUTs estavam na “guaiaca” protegendo-me do mal que poderia vir (e veio mesmo)...

Logo no início de março de 2020, troquei de estratégia: usei o contrato de nov/19, realizando termo fixo para águas e confinamento 2020 (primeiro giro e segundo giro, que por sinal também já tinha tido seu custo travado em fev/20, na Agropecuária Grande Lago).

Você pode aí me perguntar: mas e as PUTs? Eu as executei nas duas oportunidades que tive: no início do ano com a “engazopada” das compras chinesas de jan/fev e na semana de 18/mar, quando a arroba caiu R$ 45 em praticamente dois dias, após o mundo chacoalhar com a pandemia do coronavírus. Obs.1: o termo de preço fixo, além de eliminar o risco de escala em um ano altamente incerto, garantiu o mínimo necessário para o fluxo de caixa projetado da fazenda, por isto foi executado. Resolvi não tomar qualquer risco, a não ser o risco de base, implícito na operação de termo fixo; Obs.2: por alguns dias, voltei a ficar descoberto, pois houve um intervalo de tempo entre a venda das PUTs e a contratação do termo fixo... Noites em claro.

O lucro mínimo desejado estava garantido com o termo. Mas ainda faltava alguma coisa... Antes de fazer o termo estava profundamente preocupado pela incerteza do ano. Mas depois de fazê-lo continuei sem dormir (por vezes, acordei de madrugada) pois nunca me saiu da cabeça a possibilidade da arroba continuar firme mesmo com o enredo tenebroso de 2020 porque somos o “hipermercado do mundo” (um mantra que tenho repetido para mim).

O que eu fiz? Apliquei uma parte do lucro das PUTs “executadas” e de (pequenas) operações do mercado futuro realizadas desde dez/19 na compra de calls para os meses em que haverá abate concentrado do confinamento (julho, setembro e outubro/novembro).

Estou comprado em calls de agosto strike R$ 200,00; calls de outubro strike R$ 205,00 e uma operação estruturada de opções chamada de “butterfly” (ou “fly”) para o mês de julho, na qual terei ganhos se o mercado passar entre R$ 200 a 210,00 (com pico em R$ 205,00). Detalhe: todas estas operações custaram entre R$ 0,82 a 2,63/@, com o preço médio em R$ 1,19/@. Em caso de haver lucro na B3, ele será adicionado ao que ficou combinado com o termo fixo.

Garanto que só fiquei sossegado depois que montei uma estratégia na B3 complementar ao termo fixo, a qual me protege da alta (visto que o nível da venda foi travado).

Em ano de pandemia, assumi minha total humildade frente ao mercado. Desisti de tentar acertar. Resolvi tentar lucrar, como disse há algumas semanas. A estratégia é “flex” porque protege da baixa, ao mesmo tempo que permite participar de um eventual (e provável) aquecimento da arroba. Volto a dizer, não faço parte dos megafones que propalam a mais absoluta catástrofe para o bovino brasileiro em 2020.

Com toda a transparência do mundo, o que eu fiz está aí descrito. Confesso que a “espinha gelou” por vezes, por ter feito uma operação, outras por não ter feito. Confesso também que nunca aprendi tanto, nunca “suei” tanto, pois foi o primeiro ano que a operação pecuária conduzida por mim atinge o bolso do meu núcleo familiar de maneira direta. Ter a pele em jogo (skin in the game) faz toda a diferença. Quem mais pode te ajudar é quem sente a mesma dor que você.

Espero tê-lo ajudado com o meu case. Não que seja algo de fato muito bom. Modéstia a parte, digo que o plano executado atende a minha necessidade de gestão de risco. O plano de vôo está pronto, mas sigo alerta, pois sempre dá para fazer um upgrade do lanche a bordo.

O melhor sintoma que a gestão de risco foi bem executada é o sono. O sucesso é ter sono e ser feliz. Até a próxima!

Fotos em destaque nos episódios da semana: a fazenda, o melhor dos refúgios para a pandemia, especialmente com a família.


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