É perigoso pegar uma faca caindo (MiniFront)

  • Por Rodrigo Albuquerque - 2 de Outubro de 2021

Companheira(o) que carrega o pó da viagem,

Essa frase é um clichê usado quando ocorrem correções negativas de preços de maneira contundente, como é o caso do boi. Apesar de muito “batida”, é a melhor frase que me ocorre no momento. A visão está turva, mas vamos refletir em alguns pontos...

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1.    Ninguém tem certeza de nada com relação à questão China (repito o mesmo da semana passada novamente). Não se iluda com os “sabichões” do momento. A China pode voltar a qualquer momento, ou pode voltar daqui semanas, meses... Tudo que podia ser feito, foi executado pelo Brasil. Só resta aguardar;

2.    Foi a semana do “stop no físico”, ou seja, a decisão de entrega de boiadas para abate a preços menores ganhou corpo porque não ocorreu o reinício do embarque para a China antes do longo feriado deles (vai até 07/out). É aquela velha história: o boi confinado é “iogurte perto do vencimento”. Em algumas praças, o risco de preço está menor do que o risco de escala (tem gente com dificuldade de vaga para abater a boiada). Logo, o preço cede com força. Além do mais, o abate no Brasil segue reduzido e direcionado para outros mercados que pagam menos (incluso o interno), logo, as ofertas dos frigoríficos caem na mesma medida;

3.    Teve “stop no futuro” também! A bolsa “derreteu” ao ponto de queimar quase toda a alta acumulada em 2021 no contrato de outubro (BGI V21), por exemplo. Feliz daquele que se protegeu. Aos demais, infelizmente resta torcer para uma solução menos dolorosa e menos extensa, absorvendo a amarga lição;

4.    Apesar dos diálogos com a China durante a semana (até então, reinava silêncio), a reversão não ocorreu. Tenho a impressão de que: 1. Há dúvidas técnicas com relação ao ineditismo de termos dois casos ao mesmo tempo (e suas datas de ocorrência); 2. Há interesses e/ou aspectos políticos de ambos os governos que podem abranger horizonte muito além do setor pecuário e que atuariam para postergar a reversão. Ex.: seria bom para a China incentivar o consumo do suíno (através da redução de disponibilidade da carne bovina) visando estancar a sangria dos baixos preços/margens enfrentados pelo setor que produz a sua principal fonte proteica? Seria bom para o Brasil elevar a disponibilidade de sua principal fonte de proteína (e com isso atenuar os altos preços/inflação do momento)? O termo “garimpo da fome” não pega bem em ano eleitoral (dê um google e entenderá do que se trata). Enfim, são conjecturas que nos fazem pensar...


5.    A próxima semana será a semana do potencial “stop da carne”. Explico: o recorde de exportação de setembro começará a chegar nos portos chineses e nos demais mercados (+31% no YoY). Alguns traders dizem que entre 45 a 140 mil toneladas de carne que estavam prontas com data anterior ao embargo de 04/set foram remetidas, justificando o recorde de exportação. Detalhe: ninguém sabe o que vai ocorrer com todo esse produto! E isso começará a ser definido a partir de meados da próxima semana (daí o “stop da carne”). Esse estoque gigantesco poderá ser internalizado na China? Vai ter que voltar ou ser redirecionado a outros mercados/mercado interno? Vai ser renegociado e ficar por lá? Vale lembrar que não podemos certificar e enviar para a China nenhum quilograma de carne com data posterior a 03/set, mas a carne que estava com data de certificação anterior e com pedido contratado (parcialmente já pago), foi enviada. Foi um risco assumido pelo setor (exportador e importador). Qual o desfecho? Ninguém sabe, mas os reflexos tendem a ser gigantes, dependendo do que ocorrer. Na prática, a China ainda não sentiu falta da carne do Brasil;

6.    Quanto ao mercado interno, como ele se comportará com os canhões das grandes indústrias mirando vendas por aqui mesmo? O “stop da carne” tem potencial de ocorrer internamente também. A ver...

Dos seis pontos acima sairão os próximos passos do mercado. Sinceramente, eu não estou confortável com o que o mercado sinalizou até agora, mas tudo pode mudar ao sabor de um e-mail.

Penso que a única coisa que não pode ser feita no momento é permanecer inerte, postergando decisões e aguardando a solução desse caso, porque a data é absolutamente incerta. As decisões têm que ser tomadas porque quem decide, pode acertar ou errar. Quem não decide, já errou! Ah, cuidado ao tentar pegar uma faca caindo!

Até a próxima! Rodrigo Albuquerque

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