De onde é melhor ver a fazenda: do lombo do cavalo ou do drone? (Blog Front)

  • Por Rodrigo Albuquerque - 4 de Maio de 2019

Companheira(o) que carrega o pó da viagem,

No embalo da brincadeira do “Nutella” e do “raiz”, no futuro próximo, teremos o pecuarista Nutella e o pecuarista raiz com relação ao modo como observa seus pastos?

1)    COMENTÁRIO DA CABINE DE COMANDO
Pano de fundo do mercado inalterado: há 3 semanas perdemos o embalo do (extenso) aquecimento de preços da arroba (durou 9 semanas), mas o mercado NÃO cede fortemente, pois chuvas importantes ainda abençoam os pastos de SP, MS, GO, TO, RO, etc. O pecuarista ainda está confortável (a safra foi empurrada para frente) e o frio não chegou forte. Se por um lado “não derrete”, por outro, não tem como reagir agora. Segue o “soft landing” (pouso suave).


Importante notar que os preços caem de maneira localizada. Há locais onde a pressão tem “colado melhor”, p.ex., GO, MG e talvez MS. Há outros onde ela não colou, como é o caso do MT, TO, Pará (menos Redenção). O oeste da BA, RS e SC permanecem em subida de preços. No frigir dos ovos, a arroba média do boi no Brasil caiu R$ 0,24 no fechamento semanal, marcando R$ 146,28 (prazo e livre, dados Scot/IBGE adaptados). A @ média nacional da vaca marca R$ 136,39, nas mesmas condições.

Os frigoríficos escalam melhor que no primeiro trimestre, é verdade. Mas ainda recorrem a lotes “picados” para fazer volume um pouco maior. Há praças com escala da próxima semana pronta, mas há muita carência de lotes grandes no mercado.

Do lado da carne bovina havia expectativa boa na virada de mês, até porque o frango e suíno estão aquecidos (maior valor dos últimos 12 meses -Scot-), mas a expectativa foi frustrada. Tomara que o meio de mês com dia das mães (12/05) dê melhor fluidez ao atacado. Não podemos correr o risco do atacado cair agora, pois isto aumentaria as tentativas de pressão mais fortes. Além do dia das Mães (importantíssimo no atacado/varejo), a missão da Ministra Tereza Cristina na China (dia 06/05), anima a esperança dos frigoríficos (notadamente os exportadores, que estão bem melhores do que os de mercado interno). Ainda tem a possibilidade dos EUA e Indonésia... As melhores notícias (e sobretudo margens) da indústria, definitivamente estão vindo de fora neste ano. Segue o jogo!

2)    RECADO DA “MÃE DINAH”
“Em 2019 criou-se uma nova categoria de frigorífico. Agora são três: há os de mercado interno, o que exportam e os frigoríficos China. Por isto eles estão brigando. Ah, também criou-se neste ano, uma nova tipificação de carcaça de boi: o boi China”.

3)    BEEFRADAR (reforço do percentil de queda, no “trieiro” pouso suave -“soft landing”-)
52,5% queda | 37,5% estabilidade | 10% alta

4)    HORA DO QUILO
A relação de troca “sacos milho/arroba” atinge níveis bons (historicamente) para o pecuarista, revisitando os 4,6 (valores do futuro apontam 5.0 para setembro). Prespectiva boa para o confinador (do ponto de vista do trato). O agricultor promete usar o silo bolsa e o pecuarista vai usar o “silo-boi”. O da ILP(F) vai usar ambos, este sempre sai na frente!

5)    TO BEEF OR NOT TO BEEF, A SUA REFLEXÃO SEMANAL
“Tem gente comprando boi como se ele fosse acabar”, frase de um amigo em um grupo de Whatsapp. O assunto foi abordado em um “mercado minuto” da semana, que tratou do ágio do boi magro em parceria com a TVAgro do amigo Antonio Pereira:
https://gestaoderiscoempecuaria.com.br/noticias/lista/mercado-minuto/

6)    O LADO “B” DO BOI, A SUA CRÔNICA SEMANAL DE GESTÃO DE RISCO EM PECUÁRIA
No feriado da Semana Santa estive com a esposa e as crianças na Fazenda da família. Em todo tempo, meu filho na moto (de capacete, é claro) e minha filha na sua égua, a Shakira.

No domingo pela manhã iniciou-se o “ritual de despedida” entre minha filha e a Shakira. Depois da cavalgada final, ele inclui um tempo na remanga. O carro esperava para iniciarmos a viagem de retorno, mas antes a Manu ficou ali com a égua (só no cabresto), deixando-a pastar a grama baixinha da remanga da entrada da Fazenda.

Então, tive a ideia de filmar a Shakira pastejando em slow-motion (câmera super lenta), à fim de ensinar a Manuela sobre a diferença e apreensão de pasto entre os cavalos e os bois. No dia anterior, a Manu tinha aprendido seis pontos importantes a se observar quando se deseja analisar um pasto a cavalo e entendi que seria uma boa ideia explicar para ela que há diferenças funcionais importantes no hábito do pastejo entre as espécies. Obs.: o filme está lá no Instagram @noticias_do_front (ele só não sai em slow-motion, infelizmente, não sei porquê).

No final das contas, aquele filme serviu para a Manu, mas também para mim... Explico: ao olhar nos mínimos detalhes a égua Shakira pastejar em slow-motion, pude relembrar e consolidar o entendimento de como é perfeito o projeto de Deus com relação à mandíbula, lábios e dentes do equino. A estrutura buco-maxilo-labial permite um hábito de pastejo diferenciado, bem próximo ao chão. É facinante ver como funcionam, ao mesmo tempo, os lábios e os dentes do animal. Recomendo fortemente que você faça filmagens em slow-motion dos seus animais, sejam bovinos, equinos, etc. Você vai aprender fortemente. A manuela e eu adoramos e (re)aprendemos juntos. Fazer isto com os funcionários creio ser fundamental...

A partir desta singular experiência, minha mente derivou para o seguinte questionamento: hoje em dia, quanto tempo passamos observando um animal comendo, pastando, bebendo água, nos mínimos detalhes? Será que não temos que voltar às raízes?

Será que a "industrialização" da produção não tem afastado os pecuaristas do gado e do lombo do cavalo? Estes dias, o amigo Rogério Goulart da Carta Pecuária fez uma pesquisa, perguntando a respeito do “principal meio de locomoção” do pecuarista dentro da fazenda. Apenas 38% apontam o cavalo como resposta.

Para mim, o cavalo pode não ser o meio de locomoção mais frequente para o gestor (e talvez nem deva ser), mas é o principal, pois é o que dá a melhor visão do todo e, na minha opinião, dá uma visão muito melhor do que a eficiente dupla moto/quadriciclo.

Com a chegada da tecnologia, ficamos mais perto do Excel e muito mais longe do boi, da vaca, do bezerro e até do peão... Quantos de nós usam o cavalo no dia a dia, ao menos uma vez ao mês?

Sim, o drone ainda não é realidade no campo, mas certamente vem aí trazendo ângulos de visão que não temos até então. Quem sabe nos ajuda a ver melhor a infestação por invasoras, quem sabe nos ajuda a ver a densidade foliar, a cobertura de solo, etc... Ainda não é realidade, porém. Mas vai avançar... E não vem sozinho! Com ele vem o satélite, como já fazem a tempo os australianos.

Sem desmérito nenhum ao drone e ao satélite (ambos bem vindos e futuramente necessários), será que não nos afastarão ainda mais da nossa raiz?

Indo mais além na reflexão, concluo que temos olhos aguçados para a tecnologia que custa dinheiro (a tecnologia "insumizadora"), mas temos uma visão turva sobre aquela tecnologia que não custa dinheiro: uma água e bebedouro limpos, um pasto bem colhido, um peão satisfeito, bem traiado e caprichoso, um pasto bem manejado, e por ai vai...

Paradoxalmente, unir esta voltas às raízes com o (muito bem vindo) “olhar digital”, penso ser a melhor lanterna para se encontrar o tão perseguido lucro pecuário. Mas esta união tem que ser equilibrada e não vejo equilíbrio entre o passado e o futuro, por parte do pecuarista.

Ou ele pende apenas para a visão raiz (do lombo do cavalo) ou só quer ver a fazenda de cima da Hilux, do drone ou do satélite. Lá de cima costuma ser tão alto que, na maioria das vezes, eles não conseguem escutar o que os animais gritam. E eles tem gritado cada vez mais alto... Até a próxima!

Obs.: na semana que vem postarei aos assinantes um resumo de uma palestra do Antonio Chaker, a qual assisti recentemente, e que vai muito de encontro com esta reflexão!

Fotos em destaque: Estádio Serra, no dia 01.05.19; lembranças da égua Shakira e do Vermelho Grill de Campo Grande/MS. Detalhes no nosso Instagram @noticias_do_front.

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Comentários ( 2)

  • - JOSE NEUMAN MIRANDA NEIVA

    Extremamente lúcida a sua análise. Concordo que o drone e as imagens de satélites são ferramentas importantes e serão cada vez mais usadas, mas a presença do homem é importante. Quem aceitaria um diagnóstico de um médico com base apenas em imagens de ultrassom ou ressonância, sem uma boa conversa e exames presenciais? Eu só confio nos dois juntos....

  • - Rodrigo Albuquerque

    Jose Neuman, nosso cérebro privilegiado lá das bandas do TO, um mineiro muito inteligente... receber um feedback deste me deixa honrado! Obrigado! Não poderia ser mais assertivo no seu exemplo: nada dispensa a presença do clínico médico, e ele, juntamente com o equipamento, dará sempre o melhor tratamento. O mesmo pode-se ver na aviação: a melhor combinação é um avião novo com um piloto experiente! Muito obrigado e parabéns pelo AgroVerdades. Nesta semana vai mais um episódio compartilhado aqui, enobrecendo o Front!

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