Confinar ou não confinar, eis a questão (Front)

  • Por Rodrigo Albuquerque - 18 de Abril de 2020

Companheira(o) que carrega o pó da viagem,

Como confinar, se a reposição está nas alturas, a comida cara e o preço de venda desanimador? A resposta óbvia já sabemos. Que tal uma visão mais holística da coisa?

1)    RECADO DA “MÃE DINAH”
Uma parte do mercado acredita numa catástrofe de demanda interna no segundo semestre. Não faço parte deste “time”. E digo mais: se a tal não ocorrer, poderá haver disputa à tapa para abater o boi daqui uns meses...

2)    BEEFRADAR (equilíbrio absoluto entre chance de queda e de estabilidade)
45% queda | 45% estabilidade | 10% alta

3)    O LADO “B” DO BOI
Nos últimos doze meses, vimos uma alta brutal do boi magro, entre 30 a 45% nos dados da Scot Consultoria; o custo da alimentação do boi em confinamento subiu entre 6 a 26%, dependendo da praça segundo os dados do Laboratório de Análises Socioeconômicas e Ciência Animal (LAE) da FMVZ/USP. Ainda segundo a mesma universidade, o custo total de bovinos confinados subiu entre 30 a 35% aproximadamente nos últimos doze meses.
De outra sorte, o preço sinalizado pelo mercado futuro para a entressafra de 2020 aponta para uma curva invertida, ou seja, o contrato padrão da entressafra, out/2020, está cotado cerca de R$ 7 a 8/@ menor que o mercado físico de hoje.


Moral da história: a Assocon diz que há uma redução da intenção de se confinar gado por parte do invernista da ordem de 10%. Neste momento crítico da decisão de se fechar ou não o tal do boi, muitos estão tomando a decisão olhando apenas uma das facetas envolvidas: o boi! O raciocínio comum é: se eu fechar meu boi ou comprar um boi magro para confinar, vou ter R$ x/cab de prejuízo... Sim, a conta pode estar correta, não duvido nenhum minuto. Mas é preciso ter uma visão mais holística sobre o desafio: “há que se olhar os 3 caixas”, como diz o meu amigo Rodrigo Patussi da Terra Desenvolvimento, principalmente se você tem um sistema de pastagens integrado ao sistema de engorda intensiva.

O primeiro deles é o “caixa boi”. Aí, cabe o raciocínio acima, do resultado financeiro por cabeça, especialmente se você vai comprar o boi magro para ir direto ao cocho. Mas também há que se olhar muitos outros aspectos. Exemplo: quantos meses de idade tem seu boi hoje? Ao tomar a decisão de não confiná-lo, provavelmente, você vai abatê-lo daqui 8 a 12 meses. Sabe-se que o gado J4 (até 30 - 36 meses, com 4 dentes permanentes incisivos) está sendo muito mais bem remunerado que o gado mais erado. Esta diferença pode chegar até R$ 300/cab. Pensando em estender o ciclo em 8 meses, p. ex., poderá haver potencialmente até R$ 37,50/cab/mês a menos de faturamento ao se “erar” o animal. Pensando em gado a pasto, esta conta é importante ser analisada... Outro ponto: vale a pena segurar um animal que já possa ter iniciado a fase de engorda mesmo a pasto? Há frame para abater o animal mais erado com peso maior?


O segundo é o “caixa comida”. Há pastagem para se apascentar os animais no período extra, principalmente na seca que se avizinha? Em várias regiões vemos oferta de pasto, de modo que isto pode ser possível. Além do mais, deixa-se de comprar um animal de reposição, bastante “salgado” neste momento. Mas muitas vezes vemos esta decisão ser tomada num impulso, em geral motivado por uma revolta “preço-dependente”, sem ao menos se analisar a curva anual de produção de forragem da propriedade. Será que a continuidade de animais bastante pesados no sistema não afetará a próxima estação produtiva da pastagem? Esta é uma decisão que afeta a demanda de comida de dois anos na sequência... deve ser bem ponderada.

Um ponto importante: para mim, o grande ganho financeiro do confinamento só vem se ele permitir que exploremos o recurso pasto com mais intensidade no período das águas, justamente por considerar neste raciocínio a irregular curva de produção de forragem tropical. Dá para abrir mão disto, aos 40 do 2º tempo, considerando o todo do sistema de produção nesta e na próxima safra?

O terceiro que merece total atenção é o “caixa dinheiro”. A conta por cabeça confinada pode não ser boa, mas a pergunta é: sua empresa roda o fluxo de caixa anual sem o faturamento previsto para o segundo semestre? Via de regra, quem tem dívida tem a “pinguela mais estreita” e menos margem de manobra para este tipo de decisão. Há que se considerar aportes extras de fora, recursos de bancos (disponibilidade e taxas, etc). Muito comumente, olha-se somente a conta do boi e não do negócio como um todo. O simples fato de se usar boitel alivia a demanda de fluxo de caixa da fazenda, porque em geral se paga a diária no ato do abate dos animais.

Como disse um amigo num grupo: “todo mundo sabe fazer conta do risco/retorno na hora de tomar risco ou não. Capital imobilizado no confinamento é gigantesco (boi + comida), por mais que a Selic esteja caindo, o crédito na ponta final está mais caro e escasso. Será que a maioria dos empresários (confinadores) vão ter peito e coragem de investir na atividade agora com tudo jogando contra e com o nível de risco brutal que temos na economia hoje?  Qual cenário mais provável da atividade? Peitar o risco e manter o numero de animais confinados? Ou pisar no freio e esperar uma situação mais clara de mercado”?

Minha opinião: a resposta para estas perguntas são como impressão digital. Cada um tem a sua! Por exemplo: o fato de ter protegido o preço de venda da arroba no início de março, por exemplo, pode mudar totalmente a melhor decisão de um produtor.

Tenha uma visão holística de tudo que envolve esta difícil decisão. A maioria das pessoas olha apenas o boi, e se esquece do sistema de produção e do arcabouço financeiro que o envolve. Por fim, decida! Quem decide pode errar ou acertar. Quem não decide, já errou! Até a próxima semana!

Fotos em destaque: a última entrevista antes do distanciamento social e um março/abril abençoado por chuvas...

CASO QUEIRA DESFRUTAR O CONTEÚDO DO EPISÓDIO ACIMA, NA FORMA DE ÁUDIO (PODCAST), BASTA APERTAR O PLAY:

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