Boi a termo, a prosa sem meio termo (Blog Front)

  • Por Rodrigo Albuquerque - 9 de Novembro de 2018

Companheiras(os) que carregam o pó da viagem,

A polarização da política ecoa na pecuária... Hora de revisitar o tema “boi a termo”!?

1)    COMENTÁRIO DA CABINE DE COMANDO

Enquanto a “varcina” se posiciona pouco acima de R$ 1,00 até R$ 1,75; enquanto a China nos brinda com negócios vultuosos e a semana termina com o setor (novamente) nas páginas prisionais, vimos que a heterogeneidade do mercado já dita aqui, se acentuou. Existe dicotomia até mesmo em nível intra estadual, como SP (os grandes abastecidos pelo termo, desafiam ofertas, contrastando com os pequenos frigoríficos que as mantém). Entre estados, a diferença é maior, ex.: Cuiabá/MT e Redenção/PA com pressão, enquanto o sul da Bahia e Dourados/MS tem reajustes importantes. Nosso “olhar macro”, que pondera os preços com a proporcionalidade dos abates das praças (dados Scot/IBGE, adaptados), reforça a tendência que apontamos há 15 dias: a arroba está estabilizada na média Brasil (R$ 140,34/@ a prazo/livre).

Além de heterogêneo e estável, o mercado está intrigante. Para onde ele vai no curto prazo? Em nível nacional, temos: oferta de gado caindo (rescaldo do confinamento, ainda sem  oferta de pasto), exportação caindo (obedecendo a sazonalidade), produção de carne caindo (feriados em sequência), consumo interno melhorando (“ok” para a primeira quinzena). A consequência parece ser uma readequação dos estoques, ecoando numa recuperação do atacado (principalmente com osso), acompanhada pelo suíno/frango/ovo. Resultado: margem frigorífica em ascenção. No final do dia, este cenário nos indica um bom suporte para a arroba, que dificulta a imposição de quedas e exala um (leve a médio) viés positivo, no seu devido tempo. Seguimos o jogo, lateralizados por ora!

2)    RECADO DA “MÃE DINAH”
“Andanças em SP, MG, MS, MT e GO revelam um arranque da safra de pasto espetacular, há tempos não visto. Tudo bem, isto privilegia o aparecimento das tais “vacas da costela lisa”, mas muda o lado da força na queda de braço da arroba, favorecendo o pecuarista”.

3)    BEEFRADAR (reforço para a estabilidade)
25% queda | 40% estabilidade |35% alta

Detalhes: https://www.scotconsultoria.com.br/encontrodeanalistas/

4)    HORA DO QUILO
Qualquer semelhança com as finanças, não é coincidência: “montei e caí, montei e segui. Nesse mundão o cavalo é mito. E eu só um ponto no infinito” (Ivan Wedekin).

5)    TO BEEF OR NOT TO BEEF, A SUA REFLEXÃO SEMANAL
“Os que crêem que a culpa dos males está em nossas estrelas e não em nós mesmos, ficam perdidos quando as nuvens encobrem os céus” (Roberto Campos, citado por Arthur Villas Boas no grupo GPB).

6)    O LADO “B” DO BOI, A SUA CRÔNICA SEMANAL DE GESTÃO DE RISCO EM PECUÁRIA
Direto ao ponto: o que é o boi a termo? É um compromisso de entrega futura entre pecuarista/indústria. Combina-se que na data “tal”, haverá um abate, obedecendo características negociadas (cabeças ou arrobas, sexo, peso mínimo e máximo de carcaça, acabamento, idade, certificações, condição sanitária, etc). Trata-se portanto de uma das quatro ferramentas de gestão de risco comercial, bastante usada, principalmente depois da consolidação do setor produtivo e industrial da pecuária de corte (as outras três alternativas são a negociação SPOT, o mercado futuro e o mercado de opções).

Para quê o boi a termo serve?
Para a indústria, a ferramenta garante o suprimento da sua principal matéria-prima, a fim de conseguir cumprir os seus compromissos de venda. Para o pecuarista, a ferramenta entrega a garantia de rentabilidade e/ou escala (única ferramenta que mitiga risco de escala). Quais os tipos do boi a termo? Existem três tipos, a saber:
•    preço mínimo: pecuarista compromissa a entrega da boiada, em troca da garantia de um preço mínimo. A venda pode ser concretizada por um valor acima do mínimo (nunca abaixo) e a baliza que definirá este valor é acordada entre as partes, podendo ser o mercado futuro (com diferencial de base, se for o caso) ou uma referência sólida do mercado físico da região;
•    preço fixo: pecuarista compromissa a entrega da boiada, em troca da garantia de um preço pré-determinado. Vale lembrar que ocorrem ajustes em função de informações conhecidas no abate, como p. ex., o SISBOV (caso a boiada “passe” no crivo da inspeção, a arroba incorpora o prêmio pré-combinado, de R$ 2 a R$ 4/@, em geral);
•    preço a fixar: pecuarista compromissa a entrega da boiada, em troca da garantia de escala, mas não de preço. Em geral, a precificação virá de uma referência pré-determinada (CEPEA da praça, p.ex.). Friso de novo: esta modalidade não fixa preço, apenas o referencia e, assim, ele fica não travado (diferentemente do que muita gente pensa e diz). Neste caso, a ferramenta NÃO confere garantia de rentabilidade ao pecuarista, apenas há mitigação do risco de escala.

Do ponto de vista do pecuarista, quais os pontos positivos e negativos? Do lado positivo, há garantia de escala e/ou rentabilidade, além de o termo ser simples e sem custo, atendendo a todos os tipos/tamanhos de pecuaristas. De outra sorte, há antecipação da escala para indústria, aumento da exigência de gestão produtiva/financeira (há que se garantir a entrega física, um desafio para sistemas à pasto) e, por fim, o termo leva a uma “amarração” comercial precoce. Obs.: a garantia de escala de abate tem se mostrado necessária para operações intensivas (confinamento) e volumosas (grande entrega de gado, concentrada).

Qual a principal crítica feita para esta modalidade de venda? Muitos dizem que seria como “entregar a chave do galinheiro para a raposa”, ou seja: o frigorífico abastecido pelo termo teria a condição (óbvia) de desafiar para baixo as ofertas balcão, visto ter uma parcela da compra garantida. Estas ofertas menores, logicamente são endereçadas à parcela dos pecuaristas que não praticam o termo (e que, em geral, é a mesma que o critica). Sim, isto é fato. Ao se diminuir a necessidade de compra, há naturalmente o relaxamento de ofertas. Calma, toco nisto adiante.

Nivelados alguns conceitos (muitas vezes mal entendidos), vamos pensar... em 2017, os frigoríficos foram muito criticados porque não fizeram termo. Em 2018, são atacados porque fazem termo? Como assim? Outro ponto: os preços CEPEA (das praças) e o Indicador (SP), que são as balizas usadas com frequência para liquidação do termo, às vezes distorcem para cima, em tese, “prejudicando também o lado da compra”. Vamos mais... O CEPEA considera os prêmios na sua (pequena e frágil) amostragem, o que privilegia o pecuarista pois os prêmios EU/Hilton etc, são adicionados sobre uma base que já contempla parcialmente estes valores... Além de tudo isto, o termo é opcional e contempla apenas uma parte da compra de gado de todo o Brasil (várias regiões do País nem tem esta modalidade).

Para quem critica tanto esta forma de venda: será mesmo este o grande vilão da relação indústria/pecuarista? Será mesmo esta ferramenta a responsável pelo preço do boi não subir?

Ao enxugar a quantidade de bois do mercado físico, disponíveis para venda, em momentos de baixa oferta, o boi a termo deixa o mercado SPOT mais concorrido ainda (vide 2014 e 2015, ou já se esqueceram?). No milho ocorre o mesmo. Em um momento em que há muita oferta no físico, entretanto, o efeito do termo é no sentido contrário, o que me faz concluir que ele é um potente amplificador dos movimentos de preços, seja para cima ou para baixo. Ressalto que ele potencialmente amplifica, mas quem dita realmente o nível de preço é a relação oferta/demanda, e seus efeitos que ocorrem no palco da fronteira entre o atacado e o varejo.

O que, de fato, é ruim nesta história controversa? Primeiro, é o fato de existir muito boi a termo à fixar precificado no CEPEA do embarque (da praça ou Indicador). Assim, parte dos abates são impossibilitados de compor a média dos preços do indicador do boi, sem nem ao menos, garantir rentabilidade ao pecuarista (se for fazer o termo, prefira precifica-lo pela bolsa). Para piorar, a não inclusão dos frigoríficos de inspeção estadual de SP na amostra do indicador, se traduz numa (perversa) reserva de mercado para as indústrias “sifadas”, porque diminui a aderência deste com o mercado físico de SP, prejudicando a referência do boi do Brasil (reduz o “fervor” dos preços de SP e as operações da bolsa). O fato de muitos não informarem ao CEPEA e ao Balizador do GPB as suas vendas no físico, terminam por jogar a pá de cal final.

Com “muita paixão e pouca razão” a prosa do boi a termo sempre termina sem meio termo e sem bom censo. Cuidado! Nada (nem ninguém) é 100% bom ou 100% ruim! Até a próxima!

Foto da semana, em destaque: a palestra desta semana em Confresa/MT propiciou observar (por mais de 1.050km), o oeste de Goiás e o leste inteiro do MT. A ILP, organizada profissionalmente, por gente de valor, notadamente mato-grossenses e gaúchos, vai esparramando produção sustentável, riqueza e muito CTG Brasil a fora. É o futuro do Brasil e do mundo sendo construído.

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