Apartar dinheiro é mais difícil que apartar gado (Front)

  • Por Rodrigo Albuquerque - 31 de Agosto de 2019

Companheira(o) que carrega o pó da viagem,

Na pecuária, na maioria das vezes, o prazer é garantido mas o lucro é incerto. A solução para sair desta fatídica sina tem um alicerce com nome e sobrenome: plano de contas. “Bora”?

1)    COMENTÁRIO DA CABINE DE COMANDO
A entressafra é o “futuro” dos preços de cada ano, ou seja, aquele período que, em tese, tem o poder mágico de fazer o pecuarista sorrir mais que guri de roça na piscina do patrão. Pois bem, este senhor das trevas (o “Sr. Futuro”), chegou, revelando um movimento de preços em aquecimento, já pela 5ª semana consecutiva, posicionando a média Brasil do boi gordo em R$ 146,95/@ a prazo e da vaca em R$ 136,94/@ a prazo (dados Scot/IBGE, adaptados).


Várias praças mostram recuperação de valor, como SP, MG, MT, RO, TO, sendo o MA como destaque positivo da semana. De outra sorte, o RS, potencializado pelas pastagens de inverno, segue ladeira abaixo, na contramão da pecuária nacional. Os gaúchos não estão sozinhos no muro das lamentações bovinas... Os goianos estão sendo “rebaixados” na tabela histórica de precificação, afinal de contas, vender boi em GO por R$ 150/@ é hoje um ato digno de se contar para os amigos. Já no TO e no PA, por exemplo, o R$ 150 é “rasgado”. Vale lembrar que a história recente mostrava o preço goiano acima destas praças... Sinal dos tempos.

No mais, o mercado segue dicotomizado (entre quem tem boi a termo e quem não tem) e agora também anabolizado pelo repique do câmbio, ainda mais com o anúncio do início de vendas para a Indonésia (excelente mercado interno). O atacado da carne sentiu o meio de agosto, mas voltou a se animar nesta virada de mês.

Sem novidade no radar, seguiremos a decolagem do nosso bimotor bovino, com apenas um dos motores em potência máxima (exportação). Seguiremos ganhando altitude nos preços, de maneira muito mais lenta do que gostaríamos. Bom ou Ruim? Você decide! Segue o jogo!

2)    RECADO DA “MÃE DINAH”
O futuro dos preços de 2019 (entressafra) chegou! O futuro não é mais futuro, mas sim, presente (Dilma?!?). A força dos preços passa a depender cada vez menos de expectativa, e cada vez mais de realidade. A realidade é dura para o invernista: enquanto o gado gordo decola com uma preguiça danada, a reposição rompe o horizonte com seu jatinho particular...

3)    BEEFRADAR (incremento do cenário de alta leve/moderada, novamente)
15% queda | 30% estabilidade | 55% alta

4)    HORA DO QUILO
“Precisamos saber transformar pasto em número!” (Zootecnista Edmar Peluso, da empresa Gerente de Pasto)

5)    TO BEEF OR NOT TO BEEF, A SUA REFLEXÃO SEMANAL
“Gado gosta de pasto? Não! Gado gosta de folha”! (Eng. Agrônomo Armélio Martins). Esta é uma das conclusões de décadas de trabalho de uma das pessoas mais competentes que eu conheço no tocante a manejo de pasto. Frase aparentemente simples, mas muito profunda e que vale uma boa reflexão.

6)    O LADO “B” DO BOI
Na introdução deste Front disse que na maioria das vezes o lucro pecuário é incerto. Esta “incerteza” contempla dois sentidos: o primeiro, claro, é a própria não existência do lucro. No benchmarking de algumas safras da Inttegra, um nefasto percentual se mantém: cerca de 33% das fazendas tem prejuízo (apesar do crescente acesso à informações de qualidade, a custo baixíssimo ou mesmo gratuito). Há várias causas que levam a isto, que não vem ao caso agora. Só vou dizer que a maior parte delas está ligada ao dono, ou seja, às suas atitudes.

O segundo aspecto da “incerteza” do lucro na pecuária é a baixa capacidade de diagnóstico. Ou seja, além da pecuária ter muita dificuldade de se obter, de fato lucro, há também muita dificuldade de se saber se há ou não lucro.

Certamente um dos motivos desta dificuldade em se diagnosticar o lucro é a extensão do ciclo produtivo, em geral, maior que um ano (na cria, nem se fala). A agricultura, por exemplo, tem ciclo de poucos meses, de modo que fica mais fácil individualizar a operação. Mas, não é só isto. Há vários motivos, como a baixa capacidade de gestão, a falta de disciplina no controle financeiro, a falta de estruturação da controladoria financeira, a baixa adoção de softwares de controladoria financeira (qualquer “buteco” tem computador para seus controles), etc.

Uma causa fundamental que leva à dificultade de diagnóstico de lucro é que “apartar dinheiro é bem mais difícil que apartar gado”. O que eu quero dizer com isto? Quero dizer que depois que um valor entra na conta corrente, fica difícil apartar o que é crédito do que é receita. Da mesma sorte, depois que sai um dinheiro da conta corrente, fica difícil dizer o que é débito e o que é despesa, a não ser que esta “apartação” do dinheiro seja “carimbada” no ato do fechamento das contas mensais (conciliação bancária).

Receita é todo valor que entra na conta, proveniente de alguma venda e/ou prestação de serviço ligada ao negócio, enquanto que o crédito não é proveniente do negócio, p.ex.: um aporte de um sócio ou a entrada de um financiamento bancário. Da mesma forma, despesa é qualquer desembolso com o negócio, enquanto que débito não, p.ex.: saque de um sócio.

Evidente que há também uma grande confusão entre as saídas de caixa que são custeio e as que são investimento. O primeiro visa manter a capacidade produtiva, e o segundo visa aumentar a capacidade produtiva.

Esta “apartação” pode parecer simples, mas, de fato não é. Para torna-la simples, há que se ter um processo, em outras palavras, um plano de contas bem estruturado. Em resumo, toda movimentação financeira em conta corrente tem que estar ligada a um plano de contas (número ou identificador) que permita saber quanto foi gasto, onde foi gasto e como foi gasto (ou recebido). Este processo permite calcular os dois instrumentos mais importantes da contabilidade: o balanço patrimonial e a demonstração do resultado do exercício.

No nosso caso, usamos a modelagem de plano de contas da Inttegra, através de uma de suas empresas franqueadas (Otimiza), de modo que temos 5 níveis para classificar uma movimentação bancária. Para exemplificar, coloco abaixo como classifico uma saída de dinheiro para aquisição de suplemento proteinado 0.1% do PV para uso no gado durante o período da seca, nomeando os 5 níveis do plano de contas para a compra deste produto:
•    Nível 1: é o produto, no caso: suplemento proteinado 0.1% - empresa XPTO;
•    Nível 2: é a categoria, no caso: suplemento mineral (outras categorias são: herbicidas, lubrificantes, material de selaria, uniformes e EPIs, vacinas, arrendamentos, etc);
•    Nível 3: é o sub-centro, no caso: nutrição (outros sub-centros são: reprodução, sanidade, identificação animal, despesas casa sede, cercas, salários e encargos, etc);
•    Nível 4: é o centro de custo, no caso: rebanho de corte (outros centros de custo são: administração, rebanho genética, pastagens, forrageiras e culturas anuais, etc);
•    Nível 5: é a classe, no caso: pecuária (outras classes são: suporte à produção, mão de obra permanente, investimentos, agricultura e receitas).

Não precisa nem dizer que é fundamental o uso de uma ferramenta (software) para que se viabilize esta parte visceral da gestão financeira. Para tal, usamos o software SIGA da Inttegra.

Ah, um detalhe: se você ainda tem a mesma conta bancária para uso pessoal e da operação da fazenda, vou te dar um conselho: tira bem rápido o pisante do chão que o bonde está passando...

Para finalizar: o plano de contas é o instrumento que vai ampliar o detalhamento das contas bancárias (todas as entradas e saídas de caixa) até o nível necessário para tomada de decisão. Nesta semana, fizemos um mergulho neste assunto e é impressionante como isto clareia o futuro. 

Por falar em decisão, digo que “quem decide, pode acertar ou errar. Quem não decide, já errou”. Recomendo fortemente. Até a próxima semana!

Fotos em destaque: Villa Cavalcare, em Goiânia. Churrasco, amigos e cavalos, tudo junto e misturado, em ordem randômica.

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