Ao invés de tentar acertar, escolhi tentar lucrar (Front)

  • Por Rodrigo Albuquerque - 10 de Abril de 2020

Companheira(o) que carrega o pó da viagem,

“Rodrigo, qual preço veremos em maio e outubro”? Eu não sei, não quero saber e duvido de quem diz que sabe! Montei uma estratégia para me libertar desta obsessão.

1)    RECADO DA “MÃE DINAH”
Caso você seja um daqueles brasileiros altamente privilegiados por continuar tendo poder de compra para abastecer livremente sua dispensa, prepare-se para comer muito filé mignon, picanha e contra-filé a preços extremamente atraentes.

2)    BEEFRADAR (um pouco mais de equilíbrio mas o lado vermelho prevelece)
55% queda | 35% estabilidade | 10% alta

3)    O LADO “B” DO BOI
A última quarentena experimentada pelo Brasil ocorreu nos idos de 1918, por conta da gripe espanhola. Portanto, não temos referência para o que estamos vivendo. Além disto, uma pandemia atualmente tem contornos muito mais dramáticos, visto que as cadeias de suprimentos globais estão altamente interligadas entre países de todos os continentes. Assim, o fluxo de pessoas e mercadorias não tem paralelo com tempos de outrora.


Produzimos o smartphone onde é mais barato e o vendemos onde há mais mercado. Este modelo tem suas fragilidades, escancaradas agora. De repente a maré baixou e vimos que há muito mais gente pelada do podíamos imaginar.

Apesar disto, o ser humano teima em desejar o impossível: dominar o futuro. E quando este desejo abrange “preço”, seja de um avião ou de uma commodity como a carne bovina, é impossível se obter qualquer nível de certeza. Digo que o mercado é um eterno exercício de humildade...

Por isto, mais do que nunca, considero importante a sua auforia quanto ao desejo escravizante de prever o futuro, afinal de contas a vida é o que acontece em quanto fazemos nossos planos. Desisti da infeliz saga binomial de acertar/errar preço.

Lógico que mantenho e atualizo os cenários mais prováveis para o ano, elaborados na sua versão “0” em janeiro e compartilhados aqui. Eles servem para que possamos dosar a velocidade de nossas negociações nos momentos que julgamos oportunos. Servem para nos dar chão nos momentos de euforia e para dar resiliência nos momentos de incertezas (como agora). Servem de suporte para estratégia do ano e para gestão de nosso caixa, vital nas crises. São fundamentais, portanto, mas não são fatores decisivos para que eu aperte o gatilho, para que eu feche negócio ou não, pois eles continuam sendo absolutamente incertos.

Com estes conceitos estabelecidos, vou te contar como eu fiz a estratégia de vendas do ano. Como está no título deste, escolhi tentar lucrar ao invés de tentar acertar. A estratégia foi desenhada sobre três pilares:

1.    Fluxo de caixa: com o apoio de cenários de preços e de estimativas de desembolso, montamos um plano de fluxo de caixa para a safra 19/20 (de 01.07.19 a 30.06.20), unindo gestão zootécnica (produtiva) e gestão financeira (controle de custos). As entregas de produção e demandas de desembolso tem que estar bem delineadas no início do ciclo produtivo individualizado (que chamamos de safra). Com isto, sabemos quantos animais vão ser entregues ao mercado com uma antecedência muito grande e por qual custo de produção eles deverão ser entregues;

2.    Uso das ferramentas de comercialização: com o plano de fluxo de caixa montado para o ciclo produtivo, buscamos duas coisas: ficar antenados na bolsa e nas suas ferramentas a fim de aproveitar as oportunidades ao longo dos 12 meses de safra; também buscamos estabelecer parcerias comerciais para executar vendas a termo;

3.    Uso da gestão: o monitoramento constante ao longo da safra a respeito do sistema de produção, notamente recurso de pastagem/suplementação e desembolsos, é fundamental. Adotamos o velho e bom estilo PDCA (planeja, faz, checa e corrige), em giro infinito.
De maneira mais detalhada, esclareço as atitudes executadas usando as ferramentas de venda: na arrancada de nov/19, compramos PUTs para a safra e para a entressafra de 2020 (para 100% da produção). Em seguida e à medida que o mercado permitiu (atingindo o strike mínimo contratado, entre janeiro e março/20), realizamos estas opções, colocando o lucro no bolso.

Na sequência, migramos as travas de preço para o boi a termo, precificado via tela B3, em nível de preço que atendia nosso fluxo de caixa. Ato contínuo, o lucro das PUTs foi usado para compra de calls (a fim que consigamos aproveitar uma possível onda de recuperação mais forte da arroba a partir de julho) ou ficou em caixa, para ser agregado ao faturamento do termo.

Para alguns lotes, usamos operações de mercado futuro para também agregar valor ao termo feito ou para substituir a compra de calls que ficaram muito caras a partir de março. Enfim, uma verdadeira “suruba comercial” implementada com muito suor desde novembro/2019.

No frigir dos ovos, caso o mercado fique como está (lá em baixo), teremos o termo como proteção efetiva. Caso o mercado se recupere mais adiante, nos manteremos partipando da alta, seja pelas calls compradas, seja pelas operações de mercado futuro.

Caso o atual (baixo) nível da B3 seja de fato consolidado, estaremos imunes a ele em 80 a 85% da produção. Ao mesmo tempo, cerca de 75% da produção poderá continuar a participar de uma eventual onda de recuperação do segundo semestre, graças ao uso combinado das ferramentas de venda (termo, put, call e futuros).

Enfim, ao nos libertarmos da obsessão preço, percebemos uma paz de espírito muito grande, fundamental para enfrentar as incertezas atuais. Finalizo desejando que você também encontre a sua paz de espírito! Até a próxima semana!

Fotos em destaque: a quarentena com as ruas vazias, e o ar tão quase tão limpo quanto nos tempos das carroças... Vamos em frente!

CASO QUEIRA DESFRUTAR O CONTEÚDO DO EPISÓDIO ACIMA, NA FORMA DE ÁUDIO (PODCAST), BASTA APERTAR O PLAY:



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