Alta dispersão na amostra do boi gordo CEPEA (Front)

  • Por Rodrigo Albuquerque - 23 de Junho de 2021

Companheira(o) que carrega o pó da viagem,

Além do Indicador do Boi Gordo CEPEA/B3, todos os dias temos a publicação da mínima e da máxima captada pela amostra do boi gordo que chega em Piracicaba. Há um claro entendimento (não unânime) de que o Indicador tem ficado mais aderente ao mercado depois da metodologia ter passado a considerar a ponderação do preço em função do volume de cada negócio informado. Ainda ocorrem desvios, mas a percepção geral é que eles são menos relevantes atualmente do que foram outrora (notadamente nos cinco dias de liquidação da B3). Mas algo tem causado muito ruído, ainda: recentemente os pecuaristas vêm ficando muito incomodados com o valor da mínima que é divulgada diariamente pelo CEPEA.



Vejamos o exemplo de ontem (22/06/21): o mercado em SP tem negócios orbitando entre R$ 315 a 325/@ a vista no boi, concentrados entre R$ 320 a R$ 325, com algumas negociações acima disso inclusive. O Indicador de R$ 319,55 tem aderência razoável com a faixa citada, mas tem mínima captada na amostra de inacreditáveis R$ 290,09/@!

Apesar da aderência razoável, qualquer um que vende boi sabe que boi gordo de R$ 290,09/@ em SP é mais baixo que vaca erada em muitas praças do Brasil. Diria mais, "boi nesse valor tem tudo para ser fake" no entendimento maciço dos grupos de Whatsapp! E aí fica o gostinho de que o Indicador poderia estar um pouco mais acima, afinal de contas, por menor que seja o volume do negócio informado nesse preço mínimo, algum efeito na média ele causa.

Qual o problema disso? Os pecuaristas ficam desestimulados a participar do levantamento do CEPEA (pois esse boi de R$ 290 não existe visto na prática dos negócios SPOT). Essa atitude tem como consequência imediata, a provável redução da aderência do próprio índice de preços, causando mais descontentamento e formando um círculo vicioso muito ruim (com a desmotivação, menos pecuaristas vão informar seus negócios e provavelmente prevalecerá a informação da indústria, a qual certamente prefere enviar negócios nos preços mínimos, em geral). Além disso, a liquidação dos contratos futuros da B3 ficará afetada, pois o Indicador é a referência para esse mercado também.

Sugerimos que os negócios sejam auditados de maneira aleatória, por pelo menos uma ou duas vezes na semana, tal como ocorre de maneira permanente nos cinco últimos dias de cada mês. Negócios não comprovados deveriam excluir o informante da base.

Será que todo esse ruído do mercado tem ressonância nos números? Mesmo sem rigor estatístico muito apurado, algo fica claro na análise gráfica da diferença entre a mínima e o próprio Indicador Boi Gordo CEPEA/B3, desde 01/01/2018 até hoje (são 42 meses, aproximadamente). No gráfico abaixo, note que, no período analisado, há a clara tendência do aumento da diferença percentual entre a mínima e o Indicador (a linha de tendência pontilhada deixa isso mais límpido e cristalino do que água):



Nesse segundo gráfico, a seta verde indica o início de out/19, ou seja, no meio do período analisado de 42 meses. Foi nesse mês que o boi abandonou o marasmo dos R$ 150,00/@ em SP e iniciou a mudança de patamar de preços até os atuais valores. Note: antes desse momento (na primeira metade do período), a diferença entre a mínima e o Indicador foi de -2.66% (linha amarela), variando de -0.34% até -6.47%. Porém, na segunda metade do período (marcado com um retângulo vermelho) essa diferença aumentou em 195%, pois ela passou para -5.21%, variando de -1.38% até -13.36% (linha preta). Observe:



Tem muita teoria de conspiração que justifica o fato acima, porque justamente quando o boi começou a mudar de patamar de preço, a amostra que diariamente é enviada do CEPEA começou a chegar lá com uma dispersão muito maior, forçando a mínima cada vez mais para baixo do Indicador. Faremos o mesmo estudo com a máxima, comparando-a com o Indicador.

Cremos que esse comportamento, de “mínima bem mínima” (ou irreal), tem que ser apurado com extremo rigor pelo CEPEA (creio que já esteja nesse caminho).


Somos apoiadores do CEPEA de maneira incondicional e consideramos que a participação do pecuarista no Indicador é fundamental, para que haja equilíbrio com as informações da indústria, que sempre chegam. A única coisa que o pecuarista não pode fazer é virar as costas para o CEPEA, porque nesse caso, a cadeia inteira será prejudicada, principalmente ele próprio.

Da mesma sorte, o CEPEA tem que continuar melhorando, como fez com a metodologia da ponderação, bem como facilitando o envio para qualquer agente informar algum negócio (até ordens para a bolsa já são aceitos por aplicativo de mensagem). Apontamos como solução para o ruído escancarado nesse episódio, o aumento do período de auditoria dos negócios informados, o que poderia ser feito de maneira aleatória em qualquer dia, além de manter a auditoria permanente nos cinco últimos dias de cada mês (período de liquidação dos contratos futuros).

Juntos por um mercado mais justo, seja para cima, seja para baixo. Mas tem que ser justo! A ferramenta da bolsa é fundamental para a cadeia pecuária!

Grato, Rodrigo Albuquerque


Disclaimer: nenhum conteúdo do Notícias do Front deve ser entendido como recomendação de venda/retenção/compra de qualquer ativo, título ou derivativo agrícola, ou ainda como recomendação de investimento, mas sim, deve ser entendido meramente como opinião pessoal na data da sua publicação.

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