A reposição é o “carro usado” da pecuária (Front)

  • Por Rodrigo Albuquerque - 5 de Outubro de 2019

Companheira(o) que carrega o pó da viagem,
Pense na negociação de gado de reposição e de um item do vasto pacote tecnológico à nossa disposição. Quem tem maior poder na negociação? Comprador ou vendedor?

1)    COMENTÁRIO DA CABINE DE COMANDO
O trieiro é o mesmo há dez semanas: recuperação da arroba média do Boi no País, desta vez com mais R$ 0,80/@ “na guaiaca”, colocando o bovino no nível de R$ 150,69 (arroba da vaca média Brasil marca R$ 140,12 – dados Scot/IBGE adaptados e a prazo). Novamente, o radar não aponta nenhuma praça em queda, com destaques de variação positiva por conta de MG (em suas várias praças), MS, sul da BA, Paragominas, sul do TO, AC, ES e RJ.


Para completar, renovamos de novo a máxima nominal do Indicador Esalq/B3, subindo o recorde para R$ 162,20/@ a vista (última segunda, 30.09, boi comum em SP). Isto está virando “carne de vaca”. Aguardamos a renovação do recorde real do valor... Este sim é o foco...

O movimento de recuperação está consolidado e maduro. Neste momento, diria que seu o driver fundamental é a melhoria do atacado vista nas últimas semanas. Esta melhoria (notadamente no “com osso”) segue sendo suportada por três fatores: produção menor (menos oferta SPOT e menos vaca), drenagem via exportação e melhoria (leve) no mercado interno. A carne está nas máximas do ano, repetindo níveis de janeiro e abril. A arroba segue o embalo.

Quem começa a “abrir o bico” é o varejo, que inicia (timidamente) uma tentativa de repasse ao consumidor final, ao ver a continuidade da queda em sua margem. Faz parte. Nada que machuque, perto do quê passa o produtor. Em geral, os extremos da cadeia sofrem mais.

Em resumo: esta onda de recuperação virou “gente grande”, tal como passo de ema. Faz parte destes movimentos alguma “parada técnica para respirar”, ou seja, o mercado seguirá firme, mas sem novas máximas em alguma semana. Isto já ocorre em algumas praças. Mas o cenário do todo, claramente, ainda é de recuperação.

Houve um fluxo de compra um pouco melhor nesta semana em determinadas localidades, como GO e SP, por exemplo. Nada que assuste, não precisa alvoroçar. O movimento tem potencial para seguir. Alvoroço mesmo só por conta do canto das cigarras, das aleluias nas lamparinas e da sapaiada nas lagoas, chamando as primeiras chuvas, que já ocorreram. Segue o jogo! E viva o boi China!

2)    RECADO DA “MÃE DINAH”
A peste suína africada (ASF) se espalha pela Ásia. A pergunta que não quer calar: a epidemia vai ficar restrita lá? Estamos em um mundo interconectado. Milhares de aeronaves cruzam os oceanos diariamente. Difícil imaginar que o surto não se espalha mais ainda. Europa e África também sentem o problema. E as américas?!? Hum...

3)    BEEFRADAR (um pouco de balanço nos percentis: alta perde 5 pp para a estabilidade)
10% queda | 30% estabilidade | 60% alta

4)    HORA DO QUILO
O ágio da arroba de resposição (em relação ao boi gordo) possui sazonalidade ao longo do ano. Não raro, ele dá uma aumentadinha no último trimestre. Há uma leve tendência histórica neste sentido. Será que ocorre em 2019? A reposição já ferve e o boi aquece. Se este repique ocorrer, poderemos estar namorando com o recorde real de algumas categorias...

5)    TO BEEF OR NOT TO BEEF, A SUA REFLEXÃO SEMANAL
Quais são os riscos do seu negócio? Risco de preço, risco sanitário, risco de escala, risco produtivo (gado), risco do sistema de produção (estrutura, pessoas), etc... Muito risco, né? Pode adicionar mais um: risco tributário. Veja o caso do TO, sacudido pela retirada irresponsável e abrupta dos incentivos do ICMS para o abate no estado, fato que paralisa as nórias naquela praça. Pensa se você está por lá e com a silagem do confinamento em reta final... É... Para quê simplificar, se dá para complicar!

6)    O LADO “B” DO BOI
Dizem que os detentores da informação também possuem um poder maior no ato da negociação de qualquer produto. Concorda? Sinceramente, creio que sim. Não que seja cabal, mas quem conhece mais, tem mais chances de fazer um melhor negócio.
A questão interessante de se notar é que dependendo do produto, existe a tendência do poder da informação se concentrar em um dos dois polos de uma negociação: comprador ou vendedor.

Vejamos o exemplo do produto “plano de saúde”... No ato da negociação, o comprador tem muito mais informação e condições de determinar se o negócio será bom ou ruim, pois ele sabe todos os detalhes sobre sua própria saúde. Lógico que o vendedor, no caso em tela, a operadora do seguro saúde, tenta se “defender” com os formulários  a serem preenchidos por quem almeja um plano. Porém, qualquer um sabe que na maioria das vezes, um simples questionário “sim/não”, de fato, jamais dará segurança para a parte vendedora.

Agora, vejamos o caso da negociação de um carro usado. Inversalmente, neste caso, o vendedor é quem tem o maior poder. Só ele sabe de fato tudo que ocorreu com o carro, com relação às manutenções, consumo, barulhinhos (que os homens odeiam e as mulheres nem percebem), batidas, etc. Da mesma forma, o comprador tenta se cercar, vendo detalhes que podem dizer muito sobre o histórico do veículo, tais como compatibilidade da quilometragem com o desgaste de pneus, pedaleiras, direção, câmbio, além de detalhes do motor, lataria, etc. Sempre há um “primo entendido de carro” ou um mecânico amigo para ajudar. Há também os registros de manutenção preventiva das concessionárias, etc. Mas, no fundo tudo isto são esforços para desvendar o que o comprador sabe “decor e salteado”.

Entendeu a diferença? Pois bem, agora é hora de trazer isto para o nosso negócio: a pecuária. Uma das minhas conclusões é que o pacote tecnológico e a reposição se assemelham ao carro usado, onde o poder maior está nas mãos do vendedor.

O fornecedor de um dado item do pacote tecnológico é quem melhor sabe sobre a eficiência do produto que está vendendo; se ele quebra com frequência (no caso de máquinas); como o produto se comportará nas condições do seu cliente (no caso de um suplemento), etc.

O vendedor de reposição da mesma forma detém o histórico completo do gado. De onde veio, o que comeu, a sua verdadeira era e peso, e por aí vai.

Em linhas gerais, o pecuarista que compra o pacote tecnológico e o gado de reposição pode e deve se assegurar com certas atitudes para “se defender”, ou equilibrar as forças. Mas sempre estará, em tese, desfavorecido no ato do negócio. E sempre está “comprando o futuro”!

Para tanto, integrar-se com outros pares é fundamental. Evitar erros, aprendendo com o erro cometido por companheiros passa a ser tarefa primordial. Isto é a essência do cooperativismo, muito fraca na pecuária do Paraná para cima...

Além disto, integração entre elos da cadeia passa também a ter um papel primordial. Comprar bezerros de um criador, em que pode-se confiar em termos de pacote sanitário, genético, nutricional, com tudo combinado previamente à aquisição dos animais é um caminho sem volta. Encomendar animais de reposição ao invés de comprá-los. É disto que estou falando.

Já tinha parado para pensar nisto? Aonde você tem mais poder e menos poder, no ato da negociação? Isto vale inclusive para a contratação de funcionários, fato que não deixa de ser, em última instância, uma negociação. Vale também para o universo pessoal. Pense sempre como equilibrar as forças da informação no ato de negociar! Até a próxima semana!

Fotos em destaque: palestra em Campo Grande/MS, na 1ª Roda de Pecuária, do Leilão Correa da Costa, fazendo uma dobradinha com a Personal Pec e Adriane Zart do Manejo Nada nas Mãos. Obrigado à Lizandra e Nilton Barbosa pela oportunidade de aprendermos juntos.

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