A nova previdência e a pecuária (Front)

  • Por Rodrigo Albuquerque - 11 de Julho de 2019

Companheira(o) que carrega o pó da viagem,

O que ocorre do “lado de fora da porteira” interfere decisivamente no resultado do lado de dentro. Esta semana talvez tenha sido o ápice deste conceito, novo para muitos pecuaristas.

1)    COMENTÁRIO DA CABINE DE COMANDO
Tal como a meteorologia previu, o frio veio forte em intensidade e principalmente em abrangência territorial. Estragos e suas consequências existem. Mas na pecuária, continuo achando que (em nível nacional), os nossos preços são hoje mais influenciados pela trilogia descrita a seguir, do que pelo termômetro bem ameno. Por esta e outras, digo que estamos no período do ano que denomino de “área cinzenta das previsões”.


Em 2019, ao que me parece, a trilogia composta pelo boi do semi/TIP, pelo boi das parcerias das grandes indústrias (contratos fechados previamente com grupos) e pelos bois originados nos confinamentos próprios, está fazendo mais “barulho” que o termômetro.

Todos os três são difíceis de prever, principalmente o boi gordo da ração a pasto, que é pulverizado em produtores que “não estão na mídia”, como disse um agente do mercado (fazendas entre 500 a 3.000 animais, ou até mais, e que comercializam “fora do bando”).

As escalas andaram e tiraram a pressão de novas rodadas de alta imediatas, mas isto não é homogêneo em nível nacional (a sensação de oferta picada/escassa coexiste). Mercado em compasso de espera. Para onde eu vou? “Rasgo” rumo aos 170 ou fico neste “chove/não molha” entre 162 a 165 (base SP), embalado pela novela das novas habilitações para China!

A explosão de preços fica para agosto (mas não “agosto de Deus”). Segue o jogo!

2)    RECADO DA “MÃE DINAH”
A Mãe Dinah comunica que está de férias, lá pelas bandas do Araguaia, em Goiás, ou em Ilha Bela/SP. Retorna assim que o boi do semi/TIP tiverem sido abatidos.

3)    BEEFRADAR (predomínio novamente da estabilidade)
20% queda | 45% estabilidade | 35% alta

4)    HORA DO QUILO
“Pela primeira vez, [no mundo] há mais pessoas com mais de 65 anos do que com menos de cinco. E a expectativa de vida dos idosos nunca foi melhor” (Fórum Econômico, via Empiricus).

5)    TO BEEF OR NOT TO BEEF, A SUA REFLEXÃO SEMANAL
Não é nosso privilégio: “para o estudo, foram selecionadas oito economias (Índia, China, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Holanda, Reino Unido e Japão) e constatou-se que, em 2015, esse grupo apresentava um rombo de US$ 70 trilhões na aposentadoria. Em 2050, o rombo será de US$ 400 trilhões. As populações desses oito países reúnem 3,36 bilhões de pessoas... Do grupo analisado, Estados Unidos e China são os países que apresentavam os maiores déficits em 2015. Esses dois déficits serão equivalentes a 64 por cento do rombo estimado em 400 trilhões de dólares em 2050” (Fórum Econômico, 2015, adaptado).

6)    O LADO “B” DO BOI
Há algumas décadas, a influência do ambiente “fora da porteira” no resultado do pecuarista era bem menos impactante. A nova dinâmica dos negócios, incluindo principalmente a velocidade das informações, a tecnologia, a conexão entre as pessoas, implodiu as barreiras de modo que hoje, o mundo é plano (inspirado no livro “The World is Flat”, Thomas Friedman, lançado em 2005 mas que continua atualíssimo).

Traduzindo isto para o nosso negócio, passamos de uma situação onde os preços derivavam apenas de vetores produtivos (dentro da porteira) para um mundo em que os preços das commodities agrícolas passaram a refletir os fundamentos econômicos (fora de porteira) de maneira muito mais intensa. O resultado é uma volatilidade agressiva e uma exigência cada vez maior em gestão de risco de preços.

Como se não bastasse isto tudo, a dinâmica do vetor produtivo está mudando. Basta verificar a estrondosa melhoria dos índices da cria, com emprego de IATF e o peso/qualidade crescentes na desmama. Evidente que isto ainda não é homogêneo ao redor da “Fazenda Brasil”.

Outro ponto que merece atenção é o abate de novilhas. Isto não é novo, basta verificarmos a tendência de aumento da participação de novilhas nos dados históricos do IBGE. Desde 2005 esta tendência existe, mas a partir de 2012, uma forte aceleração é notada, exceção apenas ao ano de 2016 (retenção). Em pouco mais de uma década, a participação das novilhas representa 70% a mais do que representava, quer se analise a participação delas em relação ao abate de fêmeas ou em relação ao abate total. Com a chegada desta nova “moda” aos grandes frigoríficos de maneira escancarada, estes números tendem a ficar mais robustos ainda.

Os dois fatores citados acima, são apenas alguns que estão mudando a dinâmica do famoso “ciclo pecuário”. Poderíamos citar os sistemas integrados de produção (ILP), a solidez das técnicas de nutrição, permitindo arroçoar machos a pasto em altos níveis, etc.

Creio que teremos um ciclo pecuário com um abate mais resiliente (alto) de fêmeas daqui para frente, dentre outras consequências. Mas é inegável que ele ainda existe e que é importante nos rumos dos preços, afinal de contas, ele está intimamente ligado à oferta dos animais nas norias de abate (está amalgamado ao ambiente dentro da porteira). Como dizem no meio corporativo: o ciclo pecuário está sendo ressignificado!

Com todas estas ponderações, digo que do ponto de vista produtivo, estamos entrando no momento em que as categorias animais assumem um cenário de valorização. Esta valorização se inicia pelas categorias mais novas e depois chega aos mais erados, depois de 12 a 24 meses. Esta é a nossa rota, em curso.

De outro lado, estão os vetores de preços relacionados à macroeconomia, ligados ao ambiente de fora da porteira e mais precisamente à demanda da cadeia. Eles ganharam protagonismo neste nosso mundo flat (mundo sem mata-burros), na precificação das commodities.

Do ponto de vista da demanda, temos dois motores propulsores: o mercado interno e o externo. O segundo não poderia estar melhor e deve permanecer desta forma por um longo período. O dólar atual assumindo uma cotação mais “mansa”, prejudica um pouco sim, mas não deve nos tirar da rota positiva.

É do lado da demanda interna que vem o foco deste Front porque não poderia deixar passar em branco a aprovação da reforma da previdência na Câmara, nesta semana (provavelmente em dois turnos até o dia 12/07). O desajuste das contas públicas tem sido o grande motivador de nossa crise econômica, iniciada em 15/16. Não saímos deste pântano ainda. Isto tem desidratado nossos investimentos, fazendo ruir os empregos. Sem sinalização ao mercado de que o ajuste fiscal vai voltar, nada mudará. O primeiro e mais importante passo em termos de mudança estrutural foi dado na noite da última quarta (há acomodações, quanto aos destaques ainda não votados no fechamento deste).

Mas, para o boi, não tenho dúvidas que o dia 10/julho será emblemático, ao ser o primeiro e mais importante passo para destravar nossa economia e dar vazão à demanda do mercado interno, que absorve 75% do que produzimos. Ainda que o vetor produtivo do ciclo pecuário aponte para uma forte correção de preços, o grande avalista deste movimento, continua sendo a demanda.

O passo mais importante foi dado. Temos que continuar a luta pelas próximas reformas estruturais e a próxima tem nome: reforma tributária (não se esqueça do nome de quem ajudou a eleger no legislativo e continue a pressão)!

Não acredito que bateremos nossos recordes reais de preços (cerca de R$ 1.750,00 no bezerro e R$ 186 no boi) antes de comerçarmos a sentir na pele da macroeconomia o sabor destas reformas. Nesta linha, eliminaremos o que tem sido o “teto” dos nossos preços, não pensando em 2019 necessariamente, mas de 2020 em diante! Estes efeitos positivos não vem de imediato! Até a próxima semana!

Fotos em destaque: dia de Campo LFPec em Adamantino/MT, um show de evento do meu amigo Camacho, Jacqueline e equipe. Detalhes no nosso Instagram (@noticias_do_front)!

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